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10.2.13

Café de S. Bento


Agora já abre à hora de almoço, mas eu, tenho de confessar, associo o Café de S. Bento à noite, a um jantar para o tarde, a uma ceia, no máximo a uma conversa à volta de dois copos, ao fim do dia. Recordo-me de lá ir há imensos anos, de sempre ter podido contar com um serviço extremamente delicado e competente, com simpáticos profissionais vestidos a rigor, sem falhas.

Depois, claro, com os bifes magníficos e imbatíveis em Lisboa – “à portuguesa” ou “à Marrare”; como alguém disse: o "rolls-beef" português – servidos com uma batata frita deliciosa (em duas versões, à escolha), acompanhados de vinho (lista pequena, mas de qualidade, com boas meias garrafas, o que começa a ser raro) ou uma cerveja “bem tirada”. Cuidado com o pão torrado e a manteiga de entrada, que são uma tentação. E há empadas, atenção! E queijo da serra, de grande qualidade.

Os frequentadores são de variadas e múltiplas “raças”. Durante a semana, passam por lá, quase sempre, espécimens da nossa operosa deputação parlamentar, a prolongar a noitinha, quase sempre em registo de grave intriga, depois da exaustante tarefa diurna, exercida a bem da pátria e de todos nós. Aos domingos (porque está aberto aos domingos!) é a vez dos executivos/advogados da Lapa/Estrela assentarem nos sofás as bombazines e as Burberry’s, com madames esfomeadas à ilharga, a agitar os doirados cabelos, sempre de olho na entrada dos amigos “de toda a vida”, no tardio regresso do fim de semana nos montes alentejanos, às vezes com filharada adolescente já a aculturar-se ao espaço e aos bifes. E todos os outros, os namorados em busca das mesas de “tête-à-tête”, os solitários maduros que lêem o jornal disponível (com vareta, à antiga!) e cocam com displicente ansiedade a porta, em busca de companhia conhecida, para pôr termo à solidão frente ao copo, o pessoal da Fundação vizinha, os jornalistas já cansados dos colegas do Snob, etc. Tudo num ambiente sereno (salvo algumas “tias” e deputados mais histriónicos, a jogar para a plateia), muito agradável, de “boa onda”. E sem pressas, sem ninguém nos “enxotar” das mesas, mesmo que nos alimentemos por horas a cafés (desde sempre acompanhados de “After Eight”, como o horário recomendado recomenda).

Sujeito há tempos a uma profunda renovação que dele nos privou por alguns meses, o “Café de S. Bento” fez um “lifting”, ficando com uma decoração que lhe preservou o essencial da imagem, mas com mais bom gosto e modernidade, além de mais espaço. E continua a acolher fumadores (mas com excelente extração de fumos) e ganhou uma sala de jantar de grupos no andar superior, onde se não pode fumar. E agora até nos oferece parking, a 200 metros, coisa que, nos tempos que correm e na área onde se situa, não deixa de ser uma apreciável vantagem comparativa.

Restaurantes em Lisboa há muitos, alguns de grande qualidade e, quase todos, com uma lista muitíssimo mais variada. Mas a noite de Lisboa não seria o que é se deixasse um dia de contar com a excelente âncora de qualidade que é o “Café de S. Bento”. Um restaurante caro mas bom.

Café de S. Bento
Rua de S. Bento, 212
Lisboa
Tel. 213 952 011

4 comentários:

  1. Não está mal o apelido de rolls-beef atribuído ao bife à Marrare, esse grande clássico da bifalhada lusitana e, mais especificamente, lisboeta. Confeccionado na pureza da receita original (em frigideira de ferro, usando manteiga fresca, de carne do pojadouro ( que tenha estado em frigorífico à temperatura de um a quatro graus positivos durante cinco a seis dias, recomenda Mestre António Maria de Oliveira Belo, o sublime OLEBOMA) chega a alcançar o estatuto de grande cozinha.
    OLEBOMA situa-lhe o local do nascimento num restaurante muito conhecido que existiu na Rua do Arco da Bandeira (hoje Rua dos Sapateiros) na esquina da Rua des Santa Justa, tendo acabado à mais de trinta anos; concorre José Quitério, que identifica o local como o Marrare das Sete Portas fundado em 1804, sucessor do Marrare de São Carlos, na esquina das Ruas de Anchieta e Capelo, o Marrare do Cais do Sodré e digno antecessor do mais célebre de todos, o Marrare do Polimento que viu a luz no Chiado, em 1819.
    António Marrare, a quem alguns assinalam, parece que erradamente, origem galega, era, segundo Quitério Magno, um napolitano que aportou a Lisboa nos fins do século XVIII, (e) foi desde copeiro do Marquês de Nisa até empresário em São Carlos.
    Quanto à interpretação da sua criação no Primus inter Bares, salvo melhor opinião, prefiro-lhe a versão local do bife à portuguesa, outra formidável invenção alfacinha.
    E vou buscar outra vez o facundo Quitério que cita, como epígrafe dos Bifes de Lisboa, o Livro do Desassossego pessoano:

    Tenho ainda a memória dos bifes no paladar da saudade - bifes, sei ou suponho, como hoje ninguém faz ou eu não como.

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  2. Bem eu não posso deixar nenhum testemunho se a comida é realmente boa (se é que é). Mas, delicioso é esse sotaque portuga, do qual eu pouco entendo, ou melhor, nem tudo entendo e desato a rir !!

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  3. Muito caro para um bife que fica muito atrás dos grandes bifes do XL. O bife do cafe de são bento está para alta cozinha como as roullotes de cachorros: é um bife, satisfaz, mas só com muita fome e já de noite. De resto, a evitar... Para mais quando o XL é mais barato e está a poucos metros de distância.

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