13.9.08

Afinal havia outra!


Travessa do Rio
Travessa do Rio, 6A
Tel. 217 160 543
Lisboa

Confirmámos que, em Lisboa, não há uma só "Travessa".

Esse respeitável indicador de boas mesas que dá pelo nome – tão estranhamente simples que até pensei tratar-se de pseudónimo – de José Silva, no seu indispensável “Restaurantes de Portugal” (5ª edição!) fala-nos da “Travessa do Rio”, logo avisando que fica “num local um pouco escondido e difícil de encontrar”. De facto é, mas aqui vai a melhor decifração geográfica que me foi possível produzir: situa-se numa quelha à direita e ao fundo da primeira transversal da Avenida Gomes Pereira, indo da Estrada de Benfica ou da Avenida do Uruguai, depois de se passar um mar de automóveis estacionados; ao invés, claro, quem desce a Avenida Gomes Pereira, vindo da estação ferroviária de Benfica, deve entrar na última transversal à esquerda, antes de chegar à Estrada da Luz.

O lugar não é nenhum deslumbre como espaço. Faz parte daquele discutível gosto, muito luso-português, de ambiente a puxar para o “típico”, com telheiro “à maneira” e azulejos “a armar ao antigo” nas paredes. Tirado isto, temos duas salas espaçosas, com espaço muito limpo, um pessoal atento (ou teremos tido sorte com a educação e gentileza do Sr. Vítor, que nos calhou?) e uma belíssima comida.

Com excepção de uns torresmos menos bem cozinhados e por isso “borrachosos”, todas as entradas estavam excelentes – embora tivéssemos apreciado mais se nos perguntassem se as desejávamos, antes de as colocarem na mesa – e tudo quanto se experimentou estava feito com grande qualidade. Noto, em especial, o magnífico bacalhau à dr. Guimarães, uma simpática homenagem a um desaparecido crítico de “A Capital”, cliente cuja memória a casa consagra também através de um quadro com o recorte elogioso. A parede acolhe também crónicas de Francisco José Viegas na “Visão” sobre a culinária da casa, embora tivéssemos ouvido queixas (Ó Francisco, pense bem!) da sua ausência em tempos mais recentes, por virtude da “Travessa do Rio” ter optado por ser uma “smoking-free area”.

Crónicas e relatos lidos sobre a casa registam especialidades como arroz de pato e cabrito assado, para além de óptimo peixe.

A garrafeira é excelente, com preços honestos e boas sugestões trazidas à mesa.

Uma nota final, numa sobremesa: o pudim de ovos, dito “abade de Priscos”, não o era, de facto, embora seja igualmente muito bom.

A simpatia de não ter sido cobrado um cálice de Porto a uma inesperada visitante à nossa mesa demonstra grande profissionalismo e atenção. São gestos como estes que qualificam um serviço. O que abrem a vontade de regressar, tão breve quanto possível.

E desta forma confirmámos que, para além da sofisticada “Travessa”, no Convento das Bernardas, para os lados de Santos, onde hoje preponderam a Vivianne e o António – e que muito se recomenda –, ela própria originada na mais “belga” casa anterior com o mesmo nome, perto de S. Bento, então ainda com a Sofia (hoje a liderar, com muita qualidade, o vizinho “Guarda-Mor”), existe em Benfica uma outra “Travessa” que merece bem uma visita.

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