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25.2.13

Memória - Tasquinha da Adelaide

Passei pela porta, há dias. As janelas estão cobertas, ninguém se lembrou sequer de recolher o toldo. Acabou a Tasquinha da Adelaide.

Era ali, naquela rua de Campo de Ourique, por detrás do Canas, frente ao pouco conhecido cemitério alemão de Lisboa. Se bem faço as contas, terá aberto em 1994. Fui lá uma primeira vez com o José Guilherme Stichini Vilela e o Hermano Reis - dois amigos que já se foram. Durante alguns anos, a Tasquinha foi um dos meus poisos regulares. 

A casa era dirigida pela Adelaide, uma simpática transmontana que havia viajado muito pelos States e Brasis e que, na segunda metade dos anos 90, soube trazer para Lisboa uma cozinha simples, assente em pratos tradicionais e alguns petiscos que, por algum tempo, se converteram em verdadeiras legendas na restauração lisboeta. Em 4 metros quadrados de cozinha a Adelaide fazia milagres. Eram os tempos em que por lá parava também o Pedro, namorado da Adelaide, um arquiteto que tinha graça e dava elegância ao serviço e que, mais tarde, se esfumou na vida da Adelaide. A Tasquinha estava então bem "trendy" e por lá passava obrigatoriamente meia Lisboa - política, artística ou outra.

A Tasquinha chegou mesmo a criar algum nome internacional. Vinha na maioria dos guias e recordo-me de ter enviado à Adelaide um recorte elogioso do "The New York Times". Fiz-lhe merecida propaganda pelo Brasil, onde o nome desta casa qie só disounha de 29 lugares sentados (testei os limites de espaço, numa noite em que "fechei" o restaurante numa despedida) já se tinha tornado popular e passara a fazer parte de roteiros de certos iniciados. Fernando Henrique Cardoso e vedetas das novelas eram "habitués" da Tasquinha, nas suas visitas a Portugal.

Com os anos, as minhas passagens pela Tasquinha da Adelaide começaram a ser mais esparsas. Outros restaurantes iam abrindo pela cidade e mobilizavam a minha atenção. Algumas notícias que recebia de visitantes mais atentos do restaurante não eram as melhores. A relação qualidade/preço fora-se degradando, com a rotação do pessoal a não ajudar muito o nível do serviço. Os vinhos subiram a preços astronómicos, sendo que aqueles que tinham um custo mais razoável eram de nível muito baixo. Algumas refeições revelaram uma quebra na qualidade dos produtos utilizados e um certo descuido na confeção e apresentação dos pratos. Em idas a Lisboa, chegámos a passar pela Tasquinha apenas para dar um abraço à Adelaide, sem por lá pararmos para comer. Bem mais recentemente, diziam-me que a Tasquinha perdera mesmo toda a sua graça.

Por onde andará a nossa amiga Adelaide? Seja onde estiver, envio-lhe um abraço de amizade e votos muito sinceros da maior sorte na vida.

1 comentário:

  1. Ainda há dias por lá passei com o filho do Hermano e inevitavelmente me vieram à memória momentos únicos e irrepetíveis passados naquela casa de bem comer...
    Ultimamente já nada tinha que ver com os tempos da "Saquita" e do "Sr. António"...

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