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26.7.14

Uma semana a Norte

O Norte do país é a lugar de muito boas mesas restaurativas, como se tem assinalado por aqui. Na semana que agora termina,, fez-se um percurso por algumas delas, com sucesso diferenciado mas com bons resultados a registar.


No Porto, experimentou-se, pela primeira vez, o "LSD", um espaço no largo de S. Domingos, no fundo da rua das Flores, junto a dois bons restaurantes como o "DOP" e o "Traça". Num local onde funcionou, por algum tempo, o "Tea House", abriu, há não muito, este novo conceito, com alguma proximidade com os já aqui referidos "Casa de Pasto da Palmeira", na Foz, e "Barco Boador" (assim mesmo, com B), em Espinho. Devo dizer, contudo, que este "LSD" é de uma qualidade bem superior aos seus homólogos, com uma comida cuidada e inventiva, bela apresentação, um serviço cuidado e muito bom vinho ao copo. Uma excelente opção, com preços aceitáveis, num local bem decorado.
Não muito longe dali, na praça da Liberade, ao fundo da avenida dos Aliados, no Passeio das Cardosas, na esquina do Hotel Intercontinental que dá para a estação ferroviária de S. Bento, situa-se o "Astória", um restaurante moderno, que faz renascer, naquele mesmo espaço, a memória de um café que aí existiu e que eu frequentava nos anos 60 (abria às 6 da manhã e foi aí que terminei muitas noitadas...). O novo "Astória" surge com alguma pretensão estética e gastronómica e, embora me digam que, ao jantar, está com menos sucesso do que mereceria, é sem a menor dúvida um bom local para um almoço agradável, com uma cozinha relativamente sofisticada e saudável, à altura daquilo que claramente escasseia por aquela zona da cidade. O menu "executivo" tem um preço razoável e a rimar bem com a sua qualidade.
Há anos que não passava pela "Cozinha da Terra", uma casa de pedra e heras em Louredo, onde se acede saindo da A4 em Paredes. É preciso andar ainda pelo campo aí uns 7 quilómetros para chegar a este restaurante, onde se bate à porta. Mas, como diria o guia dos pneus, "vaut le détour". Come-se extraordinariamente bem neste local. Comida sólida, feita em forno de lenha, produtos de grande qualidade, um ambiente "rústico fino" (julgo que entendem o que quero dizer) e uma sofisticação que quase diríamos inesperada num local como este. Se passarem perto, não percam a oportunidade de uma visita. Mas reservem antes, porque o restaurante já é muito conhecido por quem sabe destas coisas.
Regressámos também, em Amarante, ao "Largo do Paço", integrado na "Casa da Calçada" (atenção: não estamos a falar do clássico e vizinho "Zé da Calçada"!). Num espaço hoteleiro belíssimo, é fantástico poder ter nesta zona fronteira entre o Douro Litoral e Trás-os-Montes uma restaurante com uma "estrela" no guia Michelin. Comeu-se muito bem, a um preço elevado, com um serviço muito cuidado e uma apresentação soberba. Este não é um local onde se possa ir com frequência, mas é importante dar conta e valorizar o esforço feito para garantir esta cozinha de grande nível, que pode e dever ser uma âncora para uma zona turística que merece ser melhor conhecida. Uma vez não são vezes: dê-se ao luxo de uma visita ao "Largo do Paço".
Em Vila Real, passámos pelo "Paulo", uma casa despretenciosa no Bairro da Araucária, perto do "circuito", onde, contudo, se servem doses generosas, sempre com uma qualidade muito apreciável. A apresentação é simples, o espaço nada tem de especial, o serviço, em particular ao fim de semana, pode ser algo demorado. Mas a relação qualidade/preço é muito convidativa e há sempre lugares, sendo que o estacionamento não é difícil, fator não despiciendo nos dias que correm.
Em Vila Pouca de Aguiar, experimentámos o "Costa do Sol", no Hotel Aguiar da Pena, na descida para a vila, para quem acede da A24. Como já por aqui assinalámos, tínhamos a terra por um verdadeiro "deserto" gastronómico. Este restaurante, que existe já há alguns anos mas nos tinha passado desapercebido, constitui, a grande distância, o melhor que a terra tem hoje para oferecer. Num espaço agradável e desafogado, um serviço atento e uma lista, que não sendo muito alargada, tem uma diversidade regional de assinalar, trata-se de uma opção interessante, a merecer uma nova visita.
Um pouco adiante, nas Pedras Salgadas, uma terra que, cada vez mais, merece uma visita ao seu belo parque, voltámos a "O Conde", um pouso seguro, de comida sã, não muito variada mas bem cozinhada, num espaço simples e, no nosso caso, amigo de há largos anos.
Ainda nas Pedras Salgadas, resolvemos uma noite experimentar o "Refúgio", uma casa já com uns dois ou três anos e que se anuncia como pizzaria e especializada em grelhados. Experimentámos as pizzas, arte em que pareceram menos apurados. Numa outra vez, iremos verificar os grelhados. O ambiente é solto, simples, com muitos emigrantes à mistura. O serviço é atento, embora em dias de enchente o ritmo de atendimento se ressinta.
Numa saltada a Chaves, fomos rever "O Carvalho". De longe, esta continua a ser a melhor opção na cidade, que se recomenda sem reservas. Num ambiente simpático, com acolhimento de província que se torna muito agradável, este restaurante dá uma constante garantia de qualidade, sem nunca termos detetado falhas em qualquer das visitas efetuadas. A oferta é equilibrada, com pratos clássicos apoiados em produtos de excelente qualidade. O serviço é profissional, a relação qualidade/preço não merece objeções. Este tipo de restaurantes "irritam-me" sempre: fazem-me perder a vontade de ir experimentar outros locais...
De regresso a Vila Real, decidimos voltar ao "Cais da Villa", ali ao lado da estação ferroviária, no que era um seu antigo armazém. E não nos arrependemos, nem por um segundo. Continua a ser a melhor opção da cidade. A lista melhorou substancialmente, tudo o que se experimentou estava excelente. O espaço continua muito bonito, a zona exterior, com lista própria, é muito agradável e convida a uma bebida prévia ao repasto. A conta, ao jantar, não é "leve", mas é bem adequada ao que se consumiu (ao almoço, há um "menu executivo", que já exprimentámos, com uma magnífica relação qualidade/preço). Ah! E a carta de vinhos é soberba, com os Douro em grande e natural evidência.
Terminámos esta jornada nortenha no "Lameirão", a minha "cantina" vilarealense. Lista curta, que varia todos os dias. Por exemplo, hoje eram tripas aos molhos, feijoada e carne assada. Amanhã tudo mudará. Mas não se deve abrir a refeição sem antes expetimentar os rissóis e a bola de carne. A conta final é sempre uma boa surpresa. Quem dera que o país estivesse coberto de casas como esta, que fazem juz ao cultivo da cozinha portuguesa tradicional, sem outra ambição que não seja a preservação da qualidade e o sustento do bom paladar!

4 comentários:

  1. "uma casa de pedra e eras em Louredo"

    HERAS

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  2. Senhor Embaixador,

    Desconhecia este blogue, apesar de ser leitor assíduo do "Duas ou Três Coisas". Falha minha, certamente, mas permita-me inquirir quando nos irá brindar com as paragens gastronómicas mais para os lados das Necessidades. É que quem aqui trabalha sente - por inexistência, ou, quiçá, por ignorância - a falta de boas mesas para renovar as energias antes de uma tarde de trabalho.

    Com os melhores cumprimentos,

    Henrique Souza de Azevedo

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  3. Não é por nada.. mas vivo em Vila Real e os sítios que recomenda para comer... são os piores.

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  4. Senhor Embaixador

    Fui ao Cozinha da Terra na sequência do seu blog.

    Gostei imenso, uma comida excelente e um belíssimo serviço.

    Apensa tive algumas dificuldade em chegar, pois não tenho o GPS actualizado.

    O almoço complementado com uma deslocação a Vizela à Casa do Pão de Ló Delícia para comprar um dos seus magníficos pães de ló cobertos (bolinhol) foi uma óptima maneira de passar o domingo.

    Agradeço-lhe as sugestões de restaurantes.

    LBA

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