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27.6.16

"O Poleiro" (Lisboa)



Nos restaurantes, como na vida, tenho dias.
Por vezes, agrada-me ser surpreendido, entrar num espaço desconhecido, ser confrontado com uma coreografia diversa dos rituais banais de acolhimento, com gestos que fogem ao template aprendido nas escolas de hotelaria. Gosto de propostas de novos sabores, ou de sabores tradicionais tornados distintos, desde que isso não signifique a tentativa de ser exótico a todo o custo.
Outras vezes, contudo, prefiro descansar na rotina, nas caras conhecidas que me recebem, por mesas que me falam de conversas passadas, às vezes com amigos que não voltam. Na lista de que sei o essencial de cor, antecipo sabores em algumas das propostas que leio, como quando, em velhas casas de família, aguardamos uma certa sopa que fumega na terrina, rescendendo, como dizia o Eça, de uma forma deliciosamente idêntica, ao longo dos anos. É o conforto preguiçoso do conhecido, que irrita alguns obsessivos do novo.
Sempre que entro no Poleiro reacende-se-me este último sentimento, embora, para o leitor, a visita possa, ao invés, corresponder a uma primeira e marcante experiência.
Conheço aquela casa há mais de três décadas, exatamente tantas quantas ela leva de existência. O Manuel e o Aurélio Martins ali estão, como sempre, serenos, sorridentes, de um profissionalismo límpido e aparentemente simples. Porém, não obstante a sustentação evidente da qualidade, o universo cada vez competitivo da restauração é um desafio diário.
O restaurante, que continua pequeno, cresceu daquelas que foram as escassas mesas na sua fundação. Quase que se poderia dizer que a decoração, sem arrebiques ou pretensões, muito acolhedora e prática, prenuncia a cozinha portuguesa genuína que a casa oferece. Nela se cruzam influências minhotas e transmontanas, com a presença dos sabores do Alentejo em algumas das escolhas.
À entrada, sobre o balcão, um estendal variável de vinhos é-nos decifrado pelo saber ímpar do Aurélio, sempre atento às novidades enológicas que interessa reter, cobrindo bem as principais regiões.
Na cozinha, orientada pelo Manuel, mestre na arte da grelha, responde-se à carta que, com os anos, cresceu e ficou mais diversa, reforçando no cliente o embaraço da escolha.
Comece-se por atentar nas entradas: contei 14 da última vez que lá passei. Destaques? O misto de cogumelos silvestres frito com alho, a alheira fumada do Barroso, a morcela de Idanha com laranja e, dois clássicos por que optámos, os sempre excelentes peixinhos da horta e os ovos mexidos com espargos e farinheira.
Nos pratos, os peixes são sempre irrepreensivelmente frescos, sendo as carnes muito bem tratadas. É difícil optar, confesso. Fomos por um arroz de vieiras, com estas numa textura certa, e por umas pataniscas de camarão com arroz de lingueirão, que estavam deliciosas. Um prato clássico da casa é a massada com cabeça de garoupa e gambas, como também o é o arroz de línguas de bacalhau com coentros.
Nas carnes, decidimos pedir umas iscas na frigideira à portuguesa, por ali sempre fiáveis. Mas muito deixámos de parte, embora quase tudo já testado no passado, com grande proveito: por exemplo, as costelinhas de porco na grelha com açorda de coentros, a ilhada de vitela barrosã no caçoilo com arroz de feijão ou o arroz de costela em vinha de alhos com grelos. Ah! E a famosa barriguinha de porco grelhada, com massa e feijão. Mas há por ali muito mais!
As sobremesas (se o leitor conseguir lá chegar…) não são muitas, mas são sempre de qualidade: o mimo de chocolate, o pudim do abade de Priscos e o pudim de abóbora com coco foram as nossas escolhas, entre outras possíveis. Os queijos beirões e alentejanos podem também fechar a refeição.
Volto ao que disse no início: saber aquilo que nos espera ao abrir uma porta é um sentimento muito agradável. O Poleiro, para mim, continua a ser exatamente isso.

Restaurante “O Poleiro”
Rua de Entrecampos, 30 A
1700-158 Lisboa
Tel. (+351) 217 976 265
www.opoleiro.com
Fecha ao domingo

·       Há quase trinta anos, eu morava ali perto. O Aurélio ligava-me, quando a mesa pretendida vagava. Mal eu acabava de me sentar, “pousavam” os peixinhos da horta.
·       A rua de Entrecampos, ali ao lado da avenida da República, é um destino algo improvável para um bom restaurante. O que só prova que a qualidade, quando existe, tem muita força.
·       Nunca me recordo de ter pedido um vinho no Poleiro. Sem surpresas más, na qualidade e preço, deixo-me sempre guiar. Nunca me arrependi e aprendi muito.
·       A culinária da restauração lisboeta tradicional deve muito à cultura gastronómica galega. No Poleiro, um restaurante feito por gente do Norte, sinto frequentemente essa influência.

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