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23.12.16

Café de S. Bento (Lisboa)


O pecado da carne

Um alerta à “classe operária”: vou falar de um ambiente burguês! Pode haver, em Lisboa, locais tão burgueses como o Café de São Bento (e lembro-me de alguns), mas nenhum o é mais. O restaurante de que hoje vos falo é a encarnação daquilo que de mais saudavelmente burguês pode existir. Da decoração “chic sóbria” ao serviço delicado e profissional, da qualidade do que nos é proposto à fatura final, estamos ali no espaço de uma Lisboa que se trata bem, que assume algum epicurismo, que não regateia o requinte, que está disposta a pagar o conforto de uma refeição que a satisfaça em pleno. O Café de São Bento é um restaurante caro? Não é. Porém, como tudo aquilo que se mede à luz da bitola burguesa, também não é um restaurante barato. O que de mais elogioso posso dizer sobre este local é que o preço que ali nos cobram está em perfeita sintonia com a qualidade daquilo que nos é oferecido.

Alguns dirão: mas o Café de S. Bento são só bifes! Esta é apenas uma “pós-verdade”. Os bifes são, por ali, a alma gastronómica da casa. (Já lá iremos). Mas o leitor pode iniciar a refeição com uns Camarões “al ajillo”. Ou um (sempre excecional) queijo da Serra da Estrela certificado, acompanhado de uma geleia de Pimento de Espelette. Ou optar por um Carpaccio de Salmão fumado, com vinagreta de mel e lima, rúcula e tapenade de azeitona verde. Ou ainda um Carpaccio de Novilho, sobre o qual encontrará, naturalmente, um pouco de parmesão e pimenta rosa. Ou, ainda, pode deliciar-se com um Pata Negra (há mesmo uma “trilogia”) de grande nível.

Em coisas mais leves, com reflexo favorável no preço, tem uma oferta de Salmão fumado com salada, sobre tosta de pão alentejano e queijo creme com ervas final. Ainda mais “em conta”, um excelente Prego do Lombo, servido em pão alentejano com batatas fritas à rodela e salada tem-me “sabido pela vida” com frequência. E há Tostas, com manteiga “a dourar”.

Mas o leitor quer que lhe fale dos bifes, não é? Vamos a isso.

O “rollsbeef” da casa é o Bife à Café de S. Bento, versão magnífica do clássico da culinária lisboeta “bife à Marrare”, imerso num molho suculento. A qualidade da carne é sempre (repito, sempre) soberba. Vem com batatas aos palitos. Pode pedir para colocar um ovo estrelado por cima e uma dose de esparregado de espinafres ou uma salada verde, que vai sempre bem de acompanhamento e absolve vegetarianamente o “pecado”.

Mas o Bife à Portuguesa que o Café de São Bento também nos propõe, frito em azeite, com alho e louro, com batatas fritas (desta vez) às rodelas é também “um espetáculo”, como alguns dizem. E, finalmente, há ainda o Bife grelhado tradicional, com o tipo de batata que lhe aprouver. Em todos os casos, um conselho: se puder, opte pela carne mal passada (ou “medium-rare”, no máximo). Ela merece…

Esqueci-me de falar do pão de mistura de centeio e trigo, alentejano, com manteiga fresca, que lhe vão propor, a abrir. Cuidado com ele! É um perigo, porque é delicioso.

As sobremesas? Só duas notas, dentre as várias propostas: o “crème brulée” e o Carré 2 Chocolates (leite e negro, com 70% de cacau) sobre biscoito de amêndoa e crocante de avelã. Para acompanhar, há um Porto, um “late harvest” ou um moscatel.

Uma nota sobre os restantes vinhos. Douros e Alentejo em evidência (algumas meias garrafas e a copo), com Dão, Lisboa e Sado representados.


Na vida, às vezes, constatamos que “a carne é fraca”. Não é o caso do sempre magnífico Café de São Bento… 

1 comentário:

  1. Gratíssimo pelo alerta! Avanti populi!
    um seu amigo esquecido...

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