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30.1.13

Painel de Alcântara

Nos idos de 87/88, comecei a frequentar o "Painel". Estava aberto há pouco. Havia então por lá a Zezinha, sempre gentil, ao balcão, do lado esquerdo de quem entrava naquela casa pequena e esconsa, situada no dédalo operário de Alcântara, um pouco além do muito estimável "Alazão", perto do simpático, mas instável, "Cuidado com o degrau". Seco de carnes, agitado no gesto, educado na atitude, o Cardoso era (e é) um mouro de trabalho, que ia às 5 da matina ao mercado sacar, para nós, os melhores produtos. Tinha então o louro Zé na cozinha (onde ele próprio está hoje), que entretanto desapareceu da circulação, depois de termos conseguido, aí por 90, evitar-lhe por algum tempo a incorporação militar (numa conspiração de "bloco central" baseada em meras, mas consistentes, considerações egoístico-gastronómicas). O cardápio era simples: abriam o queijo e o presunto, com bom o vinho da casa, seguia-se uma lista farta, as pataniscas com o insuperável arroz de feijão a dominar (lembra-se, Alfredo ?), o excelente cabrito assado, o cozido das 4ªs e as favas guisadas com entrecosto, capazes de humilhar as primas de Tormes. Depois, o "Painel" alargou-se à casa ao lado, a Zezinha foi-se pela vida, o Cardoso casou, teve filhos, chamou os irmãos, houve noites com fados, a casa entrou (felizmente) na moda da noite lisboeta. Mas o nosso Cardoso não desistiu: ficou sempre pelo "Painel", não adormeceu à sobra do sucesso. Perdeu (contra o meu conselho) a aposta ousada de tentar recuperar a "Cesária", mas manteve incólume, com o seu trabalho, a grande qualidade da sua comida e o seu serviço ímpar. O meu amigo Cardoso é um grande Senhor da restauração lisboeta, um homem bom e um excelente profissional. Lisboa, por natureza, não reconhece méritos; se outra fosse a atitude da cidade, o Cardoso merecia uma medalha. Assim, tem apenas o nosso reconhecimento e a amizade sincera de quem o estima. Conhecendo-o, acho que lhe chega.
 
"O Painel de Alcântara", Rua do Arco, 7, 
Lisboa
Tel. 213 965 920

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6 comentários:

  1. O Cardoso é um daqueles "restaurateurs " a que Mestre Brillat-Savarin chamava "heros de la gastronomie", por não deixarem que o legítimo desejo de fama e riqueza contaminasse o amor à sua Arte.
    No "Painel", um arroz de cabidela pede meças, em delicadeza de confecção, às grandes receitas francesas e uma feijoada come-se com o mewsmo deleite com que se prova um delicado "primo piato" em Itália.
    Que prospere e mantenha a qualidade, a bem da gastronomia lisboeta e para felicidade dos "gourmets".

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  2. Que maravilha de blog. Vou ficar cliente. Não gosta do ALAZÃO ?

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  3. Que boa ideia de Blog! Descobri-o, via Insurgente. Dei uma vista de olhos rápida e já fiquei a salivar para o almoço. Só espero que não sejam "sulistas".

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  4. Bem, entretanto, já vi que não são, peço desculpa. Vou almoçar. Não aguento mais.

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  5. Depois de ler atentamente prometo revisitar esse restaurante que na primeira visita, há muitos anoa atrás não me deslumbrou...

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  6. Senhor embaixador, visito-o a visitar este restaurante da próxima vez, na companhia da ASAE. Se der uma espreitadela pela cozinha, tão cedo não voltará à Gilberto Rola tão cedo. Mas já foi bom...

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