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Este blogue não tem a pretensão de ser um espaço de crítica gastronómica, atividade para a qual o seu responsável não se sente qualificado. Nele apenas ficam registadas meras impressões pessoais, sempre subjetivas e em nalguns casos eventualmente injustas, de alguém que se dispõe a partilhar a opinião que formou em visitas a alguns restaurantes. Quem lê os textos aqui inseridos deve, assim, ter sempre presente esta assumida limitação de propósitos. Bom apetite!

29.10.11

Restaurantes de Trás-os-Montes e Alto Douro

(Atualização Outubro 2011)

Falemos dos restaurantes de Trás-os-Montes e Alto Douro.

Se se entrar em Trás-os-Montes pelo Porto, pode-se sempre parar, já depois de Amarante, no Marão, em direção a Vila Real, pouco antes do Alto de Espinho, na Pousada de S. Gonçalo agora lamentavelmente reduzida a um "franchising", pelas Pousadas de Portugal. O nível da cozinha já não é o mesmo de antigamente, mas ainda é uma opção possível. Mas Vila Real está a menos de 20 quilómetros...

Já perto de Vila Real, e se quiser uma experiência "radical", em termos de mergulho numa comida muito popular, pode procurar-se, fora do IP4, a Toca do Lobo, em Parada de Cunhos, na estrada antiga, voltando em direção ao Porto. Atenção: oferta restrita e muita simplicidade.

Vila Real, as coisas mudaram muito. Com o velho Espadeiro a já não honrar outros tempos e depois da misteriosa desaparição do excelente Barriguinha Cheia, a cidade tem hoje poucos pontos altos. Sem a menor dúvida, o Cais da Villa, junto da estação de caminhos de ferro, é a melhor opção atual no burgo, se bem que com preços um tanto exagerados. Não muito longe, no bairro da Araucária, gosto muito de comer no Vilalva, uma cozinha renascida pelas mãos de João Rodrigues. Do Paulo, bem perto, também se não sai desiludido, mas num registo clássico. Seguindo pelo velho circuito, em Abambres, encontrar-se-á o Maria do Carmo, uma bela casa tradicional, que se destaca por uma grande constância e pratos abundantes.

Na parte alta da cidade, perto da igreja da Nossa Senhora da Conceição, pode-se ir com toda a segurança ao Museu dos Presuntos, onde o Silva apresenta produtos de excelência, da zona de Montalegre, com uma imbatível escolha de vinhos do Douro. Na cidade, não se fica nem desapontado nem deslumbrado no Terra de Montanha. Bem como, perto de Mateus, no Quinta do Paço, em Arroios (da mesma propriedade do Paulo).

À saída da cidade, na rotunda antes de entrar na estrada antiga para Chaves, muito próximo da IP4, encontra-se, primeiro, o seguro Lameirão, dirigido pelo Eleutério, com pratos simples, escassos, mas de qualidade e a preços moderados, e, logo adiante, o Chaxoila, no enésimo renascimento de um restaurante histórico, como instalações renovadas (mas sempre com a velha e agradável ramada exterior) e uma restauração bastante recomendável.

A caminho do norte, esquece-se o Passos Perdidos, que, na minha modesta opinião, já se perdeu há muito e nem se ousa parar em Vila Pouca de Aguiar. Nas Pedras Salgadas, visita-se o Conde, junto à antiga estação. Nele, o Francisco apresenta uma cozinha honesta, sem gongorismos e a preços moderados.

Segue-se depois para Chaves, também sem parar em mais sítio nenhum, nem mesmo em Vidago: o restaurante do belo e renovado Hotel Palace - que se deve visitar! - tem, para o meu gosto, uma má relação qualidade-preço.

A restauração de Chaves tem um historial interessante: recordemos o Cinco Chaves, o restaurante do Trajano, o Comercial, o Aurora, os bons tempos do Retornado e o período áureo do Leonel (que continua recomendável).

Hoje, porém, as coisas são diferentes. O Carvalho, com a cozinha da dona Ilda, impõe-se como a principal referência gastronómica da cidade, no Tabolado, junto às termas. Não nos devemos esquecer também, para uma comida regional sólida e segura, da Talha, do João Monteiro, a seguir ao quartel, no caminho para a A24. Para uma oferta tradicional, a preços muito razoáveis, há sempre o histórico Aprígio, do nome do proprietário, embora difícil de encontrar. Muito mais fácil de localizar é a Adega Faustino, no centro da cidade, com os seus clássicos tonéis, um pouco incómoda para se comer, mas muito típica. E convém não esquecer, perto do aeroporto, o muito recomendável Canjirão, que há pouco descobri, com uma lista de qualidade e preços muito confortáveis. Não sei como vai o restaurante do Hotel Forte de S. Francisco, que há um ano oferecia uma gastronomia séria, quando por lá preponderava na gestão o meu amigo Ramos.

A ocidente, de Boticas não tenho notícias, depois da desaparição, já há muito, do Santa Cruz (ah! aquelas trutas lardeadas com presunto!). Se for só para comer, não vale a pena ir a Montalegre, mas, se se tiver de ir, o Nevada é a escolha certa, depois do Falta d'Ar já ter perdido o dito. Se se avançar pela estrada em direção ao Gerês, há, nos Pisões, o Sol e Chuva, com um panorama deslumbrante no Verão.

Mas voltemos um pouco a sul. Entrando na região pela Régua, logo em Lamego (que é Beira Alta, eu sei) pode-se ir, à confiança, a um clássico muito simples, junto à Sé, a Casa Filipe. Ainda antes de chegar a Régua eu recomendaria, muito vivamente, uma desvio de alguns quilómetros, na estrada para o Pinhão, para uma ida ao DOC, na Folgosa. Não é barato, mas é sempre muito bom. A cozinha inventiva do Rui Paula (que vem do Cepa Torta, de que já falaremos, e que hoje se prolonga no DOP, no Porto) é uma das grandes conquistas da restauração nortenha (e, eu diria, nacional!). No proprio Pinhão, há o restaurante da Vintage House, com preços "estrangeiros" e lista convencional.

Chegados à Régua, podemos ir, à confiança, ao Castas e Pratos, nos armazéns da estação (que inspirou o Cais da Villa, em Vila Real). Dizem-me que o Douro In, num primeiro andar junto ao rio, terá declinado. Fora da cidade, há duas opções: o Varanda da Régua, em Loureiro, com uma vista soberba e um bacalhau e cabrito já consagrados e, neste caso reservando e tendo paciência para aturar o ar grave do dono, a Repentina, em Poiares, com um cabrito já lendário. Perto de Mesão Frio, a Pousada Solar da Rede é uma opção simpática, embora cara.

Mudemos de ares. Lá mais para cima no mapa, embora a gerência tenha mudado, dizem-me que ainda se pode ir, em Alijó, ao Cepa Torta, onde "nasceu" o Rui Paula, de quem já falei. No caminho para Bragança, em Macedo de Cavaleiros, tendo deixado de ser opção esse pouso clássico que era a "defunta" Estalagem do Caçador, falam-me agora bem do Brasa, mas não conheço ainda. No caminho de Macedo para Mogadouro, deve visitar-se o histórico Saldanha, em Peredo, onde o João Saldanha é mestre há quase meio século. Em Mirandela, a grande novidade nos últimos anos é o excelente Flor de Sal, onde o azeite é rei e senhor. É uma bela experiência, junto ao rio, à entrada da cidade. Há por lá também uma cozinha sempre sólida, mas não muito inventiva, no Grês. Já há muito que não vou ao Maria Rita, no Romeu, um espaço rural inesquecível onde sempre se comeu bastante bem, fugindo das enchentes de fim de semana.

Chegandos a Bragança, temos várias opções. O Solar Bragançano é o pouso mais seguro, com bons produtos e uma bela história a honrar. Noutros tempos, ia-se também ao Lá em Casa, mas já se foi na sua tradição. Uma boa opção é, desde há vários anos, o Geadas, de onde nunca saí insatisfeito. É claro que a Pousada de S. Bartolomeu é sempre uma possibilidade segura, embora com um preço relativamente alto para o que oferece.

A ocidente de Bragança, em Vinhais, no caminho para Chaves, nunca comi. Falam-me que, por aí, o sítio recomendável é o Fraga dos Três Reinos, no lugar de Moimenta. No lado oposto, em Gimonde, recomendo vivamente o Dom Roberto, numa terra onde o Quatro foi, no passado, uma alternativa à altura. Mais adiante, em Miranda do Douro, não há que hesitar: vai-se à Balbina. Ou, se se preferir andar uns quilómetros mais, pode provar-se a mais histórica das postas mirandesas, em Sendim, na Gabriela. Ainda um pouco mais adiante, a Lareira, em Mogadouro, é "o" lugar da cidade, agora ameaçado pelo novo e muito profissional Kalifa. Um pouco mais para o sul, recomenda-se o já clássico Artur, em Carviçais (que terá crescido um pouco demais) e falam-me bem do Lagar, em Torre de Moncorvo, que nunca experimentei. E, relativamente perto, cada vez me referem mais o Lameirinhos, em Cabanas de Baixo. Também lá irei, um dia.

E aqui fica uma peregrinação básica por algumas mesas nortenhas. Uma escolha bem pessoal, noto bem!

Restaurantes do Minho

(atualização Outubro 2011)

Aqui deixo o meu guia pessoal de restaurantes do Minho.

Comecemos por onde se deve. Perto de Guimarães, em Moreira de Cónegos, está um dos melhores restaurantes do país, o São Gião. Não o conhecer é uma lacuna imperdoável. E, perto de Famalicão, está uma das melhores propostas gastronómicas do Minho, o Ferrugem.

Desçamos então o Minho, de Melgaço até à Póvoa de Varzim.

Logo em Melgaço, ir ao Panorama, sobre o mercado, é uma excelente opção, como o é a magnífica Adega do Sossego, no lugar do Peso. Não me sinto tentado a parar em Monção (o Mané já teve tempos bem melhores, embora me digam que devo experimentar o Galiza Mail'o Minho e o Sete à Sete), nem em Valença (onde o outrora interessante Monte do Faro, com caça, desapareceu. Perto, contudo, falam-me muito bem da Quinta do Prazo, que ainda não conheço).

Já em Caminha, vale a pena correr o risco da heterodoxia pessoal do Amândio ou optar pela segurança do Duque de Caminha, ambos na velha rua Direita. Mas longe vão os tempos do bacalhau do Chico, na estrada velha para o Moledo, ou do requinte do Napoléon, ainda antes da ponte. Já para não falar da saudade imensa da classissíma Pensão Rio Coura, para os lados da estação.

Uns poucos quilómetros depois, pode ir, com toda a segurança, ao Ancoradouro, no Modelo, com grandes grelhados, de peixe e carne. O Alfredo dir-lhe-á o que há de melhor, na ementa escassa mas excelente.

Logo se seguida, em Vila Praia de Âncora, a Tasca do Ibrahim dá-lhe bom peixe e, perto, o despretensioso Coral, do sorridente José, tem algum marisco e boas outras coisas do mar. Ainda não fui ao Dona Belinha, no Hotel Meira, esperando que possa estar à altura da restauração de qualidade a que este hotel nos habituou (na sua encarnação de há muitos anos).

A caminho de Viana, e ainda para bom peixe, tem um pouso forte e seguro na Mariana, em Afife, com peixe sempre de qualidade.

Viana do Castelo nunca foi uma "meca" gastronómica, mesmo no tempo (há muito ido) do bacalhau da Margarida da Praça, dos mariscos da Zefa Carqueija, da graça estival do Raio Verde ou da novidade que foi o Luziamar. Em tempos, comeu-se bem no Viana-Mar, como também aconteceu no início do Alambique, que tem a mesma origem. Mais tarde, o restaurante da estalagem Melo e Alvim ganhou um merecido nome, que conserva. E tenho grandes saudades da Pensão Freitas, do Sport e dos anos logo pós-abertura do Costa Verde. O Três Potes, sem nunca deslumbrar, já teve muito melhores dias, o Cozinha das Malheiras ainda vai tendo alguns, o Maria de Perre parece-me ter perdido um pouco a garra.

Onde se come, então, em Viana? Na cidade, o Casa d'Armas continua a ser de confiança, o Laranjeira, num registo mais simples e despretencioso, é recomendável e a Tasca do Valentim, agora com uma extensão para grelhados, no campo da Senhora da Agonia, tem sempre um bom peixe. Fora da urbe, a caminho de Ponte de Lima, aconselho o Camelo, em Santa Marta de Portuzelo.

Mais para sul, abaixo de Esposende, encontrará uma expressão marítima deste último restaurante, no fiável Camelo da Apúlia. Num ambiente curioso de velha pensão, a Rita Fangueira, em Fão, continua, há muitos anos, a ser uma opção curiosa.

À entrada da Póvoa de Varzim, uma espécie (agora) renovada de barco acolhe o sempre excelente Marinheiro, onde nunca tive uma má experiência. Dentro do casino na cidade, com sofisticação, come-se muito bem no Egoísta. Mas já é memória o antigo Costa. Se quiser ia a Vila do Conde, encontrará um bom poiso no nunca desmerecido Ramón (mas será que ainda estamos no Minho?).

Vamos agora avançar para o interior.

A caminho de Barcelos, na Pedra Furada, a Maria é um clássico sempre seguro, com uma garrafeira notável. O mesmo se diga para a Bagoeira, no centro de Barcelos, onde só não aconselho visitas nos movimentados fins-de-semana de verão. Amigos de grande credibilidade referem-me a Taberninha O Chico, em Perelhal. Um pouco mais a sul, perto de Santo Tirso, vale a pena passar por Rebordões e visitar o Cá-te-espero, com comida simples, mas de grande qualidade. Seguindo para Vila Nova de Famalicão, uma terra ainda não refeita da saudade do Íris, não se sai totalmente desencantado do histórico Tanoeiro ou, num registo bem mais popular, à vizinha Sara Barracoa. Mas se quiser sair um pouco da urbe, terá uma magnífica experiência no Ferrugem

Guimarães, que vai entrar em ano grande de "Capital Europeia da Cultura" tem, de há muito, como excelente expoente, o muito simples mas seguríssimo Florêncio, em S. Torquato, desaparecidos que foram o histórico Jordão e o estimável Virabar. Tive já uma experiência bastante aceitável no moderno PapaBoa, perto da universidade, sendo que o seu prolongamento no Histórico, tendo muita graça como espaço, fica muito aquém na culinária. Opções atuais são ainda o Café Concerto Vila Flor (uma agradável surpresa, no centro cultural com o mesmo nome) e, no Toural, o renovado Oriental, havendo quem me fale também do Solar do Arco (agora que o NYT o destacou) e no Templo da Gula.  Desconheço como anda o velho Batista, à entrada da cidade. No Nora do Zé da Curva já tive boas e más experiências, mas ainda não o visitei a sua nova morada.

Mas, voltando ao início deste post, se está por aqui, lembre-se do início deste texto e aproveite para ir ao S. Gião.

E chegamos a Braga, onde as coisas mudaram muito, desde o tempo dos desaparecidos e saudosos Narcisa e Abade de Priscos. Hoje, o Arcoense é um local magnífico, tal como o Expositor, este num estilo bem diverso. O Inácio e o Cruz Sobral continuam a ser dois clássicos de confiança. Falaram-me bem da Casa da Artes, mas ainda por lá não passei.

Em Ponte de Lima, uma bela vila que teima em não querer ser cidade, a escolha é grande. Com tempo, descubra nos arredores (porque dá algum trabalho, no caminho para a Madalena) o extraordinário Bocados, pode ir à confiança à Carvalheira, em Arcozelo (do outro lado da ponte), o belo Açude, sobre o rio, não desilude e, para o sarrabulho, tem sempre os dois vizinhos concorrentes, o Manuel Padeiro e a Encanada. O clássico Gaio também permanece em forma, tendo mudado de geografia. Mas eu ainda tenho saudades das portas de vai-e-vem da Clara Penha (quem se lembra?).

Que resta ainda do Minho?

Quem vai na estrada de Braga em direção a Chaves, no lado contrário a Póvoa do Lanhoso, encontrará o Victor, em S. João do Rei, com o seu famoso bacalhau. Mais a ocidente, na estrada que sai de Amares (onde o Milho Rei decaiu) para o Gerês (onde não se come!), é famoso o restaurante da Pousada, em Santa Maria do Bouro, com a sua mesa de doçarias (perto, havia o velho e imenso Abadia, mas perdi-lhe o rasto, há uns bons anos). Em Terras de Bouro, o Abocanhado é uma excelente opção, como o é o Torres, numa periferia de Vila Verde.

Lembremos ainda o Conselheiro, em Paredes de Coura, onde a clássica Miquelina já está longe de ser o que era. E também o já antigo Bar do Rio, em Ponte da Barca, onde me falam (embora sem grande entusiasmo) da Casa Real Fonte Velha, que ainda não conheço. Mais acima, nos Arcos de Valdevez, costumo visitar, com agrado, o Grill Costa do Vez, mas dizem-me que também se come bem no Matadouro. Em direção ao norte, no Soajo, o Espigueiro costuma ser de confiança.

É tudo quanto a minha experiência de restauração no Minho me leva a notar, complementado por apontamentos de "informadores". Não excluo que possa estar a ser injusto para algumas casas, por omissão, exigência ou mero arbítrio. Mas este é o risco de quem tem opiniões.

30.9.11

Cais da Villa (Vila Real)

Quanfo foi criado, constituiu uma magnífica surpresa! Haviam-me falado de uma "cópia" vilarealense do "Castas & Pratos", um interessante restaurante nos antigos armazéns da estação de caminho de ferro da Régua. 

O espaço é talvez menos vistoso que o da sede reguense mas - há que dizê-lo. sem a melhor sombra de dúvidas - estamos perante aquele que é hojeo melhor restaurante da capital transmontana. Que me desculpem o Museu dos Presuntos, o Vilalva, a Maria do Carmo ou o Chaxoila, mas o Cais da Villa, se mantiver a qualidade, está no topo da restauração vilarealense.

A lista de vinhos, e, especial os Douros, é muito boa.

O serviço é atento, se bem que ainda a necessitar de algum aperfeiçoamento.

O espaço é bastante interessante, equilibrado e de bom gosto.

5.8.10

CHAXOILA (Vila Real)

O Chaxoila está diferente. Naquela que foi a segunda visita desde que uma nova gerência tomou conta desta que é uma das casas mais tradicionais de Vila Real, confirmei que há por lá um sopro novo de renovação, que espero possa confirmar-se em pleno. O espaço deste restaurante bem antigo, para além de se ter "confortabilizado" na zona interior, tem agora uma zona protegida por vidro que - imagino - pode ser muito interessante no inverno. A área exterior, com a tradicional esplanada sob a ramada, é um sítio magnífico, especialmente em noites de verão. Pena foi que o piso não tivesse sofrido um arranjo que evitasse uma certa desarmonia com o mobiliário, com consequências incómodas. O serviço é "solto", simpático e quase jovial, o que nos faz esquecer algumas imprecisões. A cozinha começa a estar sólida, embora ainda não deslumbrante, pelo que será de desejar algumas melhorias. A carta de vinhos é excelente, com os Douros naturalmente em evidência. Vou voltar em breve ao Chaxoila (corruptela, por vício de pronúncia, da palavra saxoila). (nota ao visitante: saia da IP4 em Vila Real Norte, tome a direção da estrada antiga para Chaves. O Chaxoila está 200 metros à direita)

Restaurante Chaxoila
Estrada nacional Vila Real-Chaves
Tel 259 322 654

31.7.10

MARIA DO CARMO (Vila Real)

A "Maria do Carmo" fazia parte da "rede" histórica de tascas onde alguns vilarealenses, há já muitas décadas, ocupavam os finais de tarde, entre vinhos e petiscos. Situada na zona do "circuito", não muito distante do Palácio de Mateus, foi pouso seguro de funcionários públicos e comerciantes, dispondo num primeiro andar de sala privada onde também se "batiam" algumas cartas. De há bastantes anos para cá, mantendo-se na família da Senhora a que deve o nome, a "Maria do Carmo" ganhou um novo fôlego, renovou instalações e passou a destacar-se como um dos mais sólidos restaurantes de Vila Real. Com uma lista bem fornecida, apresenta uma cozinha caseira, com doses generosas, um serviço atento e parqueamento razoável. 

Restaurante Maria do Carmo
Abambres
Mateus
Vila Real
tel. 259 322 407

19.7.10

DE CASTRO ELIAS (Lisboa)

Da mesma cepa autoral de que se fez o antigo "Bull & Bear" e o sucesso que hoje é "O Largo", este "De Castro Elias" é uma solução para almoços rápidos, Com uma qualidade que não desmerece o nome, tem preços são muito razoáveis, onde o vinho ao copo facilita muito a vida. Poucos lugares, mas aceita reservas. Ponto negativo: o serviço. Caótico, pouco profissional, tipo "Manpower". Fica no extremo da Elias Garcia, quase junto à Gulbenkian, o que significa que tem parque de estacionamento à porta.

Restaurante De Castro Elias
Avenida Elias Garcia, 180 B
Tel. 217 979 214

TOMA LÁ, DÁ CÁ (Lisboa)

A zona da Bica foi, durante muitos anos, espaço de restauração modesta, onde abancavam funcionários e gente do comércio local. Nos últimos 30 anos, tornou-se "fashionable" e assegura uma "fauna" derivada do Bairro Alto. Nela se mantêm umas casas que começam a ganhar nome em roteiros estrangeiros, pela sua comida genuína e preços baixos. É o caso do "Toma lá, dá cá", na primeira transversal da rua do elevador, dirigida por um transmontano com jeito para o negócio e com cuidado em não deixar baixar a qualidade do que serve. O espaço é ruidoso, o ambiente bem informal, não há gravatas no horizonte. Às noites de fim-de-semana e verão, arranjar um lugar é obra. Com razão. As entradas são excelentes, os pratos bem fornecidos e bem cozinhados, há carne maronesa garantida e uma lista de vinhos bem cuidada.

Restaurante Toma lá, Dá cá
Travessa do Sequeiro (à Bica), 38
Tel. 213 479 243

17.7.10

O COMILÃO (Lisboa)

Desengane-se quem pense que vai encontrar "estrelas" do Michelin no Comilão. O restaurante é um pouso sereno, sem grande esmeros a nível de decoração, numa rua com imensas dificuldades de estacionamento, com uma gastronomia estável e sem grandes pretensões. É já hoje um dos mais tradicionais restaurantes do bairro, um local de famílias, onde muitos se conhecem de há muito, mas todos se sentem em casa.

Uma das curiosidades do restaurante é a presença constante, em especial ao almoço, de figuras de um determinado setor da classe política, agora bastante ocupado. As paredes do restaurante espelham bem esse pendor.


Não sendo um "must" em matéria culinária, por que diabo o recomendo? Porque é um local muito amável, com o acolhimento inexcedível do sr. Cardoso (que é do Sporting) ou do sr. Nelson (que é do Benfica), que são meus amigos de há muito e que sempre me dizem o que hei-de comer. Sinto-me sempre bem no Comilão, pronto! Veja onde é aqui. E apareça por lá!

Restaurante O Comilão
Rua Tomás da Anunciação, 5A
Lisboa
Tel.  213 962 630

CLARA (Lisboa)

O Clara esteve, por muitos anos, no Campo de Santana, num registo de restaurante para almoços de negócios ou jantares mais sofisticados, que mais tarde se prolongou no Clube dos Empresários, na Avenida da República. A lista era a óbvia para o tipo de clientela abastada que pretendia atingir. Agora mudou, para um primeiro andar magnífico, sobre uma loja de vinhos (pareceu-me, à passagem), ali ao pé da Trindade,. Tem uma comida mais simples, mas fiquei com a sensação de que ainda não encontrou o registo certo. Não chocou, mas também não seduziu. O serviço oscilou entre o atento (dos velhos empregados)  e o "solto" algo incontrolado da nova mão-de-obra lusófona. A rever.

Restaurante Clara
Largo Rafael Bordalo Pinheiro, 27
Lisboa
Tel. 213 431 267 

16.7.10

ALMA (Lisboa)

É um restaurante da moda, do chefe Henrique Sá Pessoa. Fui a medo, porque tinha pouco "feedback". Ambiente celestial. Fiquei seduzido pela comida. Magnífica! Criativa, saborosa, inventiva, Chapeau! Ainda andam por lá algumas inevitáveis "espumas" e "jus", à mistura com desnecessários produtos estrangeiros - vícios que espero que passem. O pessoal, jovem e movimentado, é de uma grande simpatia. A relação qualidade-preço é muito boa. A carta de vinhos é muito razoável. Ponto (muito) negativo: se alguém, numa mesa, pedir um dos menus-degustação, todos os restantes convivas são obrigados a proceder da mesma forma; não têm "direito" a pedir um prato normal... Insensato e agressivo! Fica na rua que vai de Santos para a D. Carlos I. Estacionar é trágico.


Restaurante Alma
Calçada Marquês de Abrantes, 92
Lisboa
Tel: 213 963 527

14.7.10

MEZZALUNA (Lisboa)

É um restaurante onde vou, há muito tempo, com toda a confiança: nunca lá comi mal. Melhor, tenho a sensação de que sempre lá comi bem. Italiano com abertura a muitas outras cozinhas, tem um serviço impecável, profissional, seguro. Ao almoço é "business" e oficioso, à noite é mais familiar ou amigável. Mas, curiosamente, eu gosto mais do ambiente do almoço, embora fique a "walking distance" do noturno Procópio. O preço, não sendo baixo, é proporcional à qualidade. O Mezzaluna é uma das grandes opções de Lisboa, ali no fundo da Artilharia 1.

Restaurante Mezzaluna
Artilharia um, 16
Lisboa
Tel. 213 879 944

LARANJEIRA (Viana do Castelo)

O Laranjeira é um clássico de Viana do Castelo, que vem do tempo de outras casas similares, como a saudosa Pensão Freitas. Ali, entre a Avenida (dos Combatentes da Grande Guerra) e a Praça (da República), naquela que já é a rua Manuel Espregueira (a rua de S. Sebastião, para os mais antigos), em frente ao doceiro Natário, o restaurante emergiu de uma velha pensão, de padrão familiar. Modernizou-se, já há anos, com bom gosto. Serve, de há muito, uma comida honesta, tradicional, num ambiente simpático e um serviço às mesas de um género atento que já se vai perdendo. Nas várias vezes que lá vou penso que ganharia em ter um pouco mais de rasgo, de ousadia, numa cidade onde a gastronomia nunca foi, infelizmente, o maior fator de atração - mas para a qual a família Laranjeira hoje contribui, de forma muito positiva, com o excelente restaurante da Casa Mello e Alvim, uma estalagem de grande qualidade que muito recomendo.

Restaurante Laranjeira
Rua Manuel Espregueira, 24
Viana do Castelo
Tel, 258 822 258

12.7.10

Regresso

Mudámos de estilo. Este blogue passará a fazer,  por regra, notas bastante sintéticas de experiências de restauração do (agora) seu (único) autor.
Eliminámos parte do passado de escrita, porque este é um terreno em que as coisas se desatualizam com facilidade. Ficou aquilo que, entretanto, confirmámos.

17.6.10

VILALVA (Vila Real)

Pela província portuguesa, florescem hoje restaurantes que, tendo entendido que a sua sobrevivência passa por um modelo médio de refeição, não excessivamente caro nem demasiado criativo, desenham um produto simples, quase padronizado, que satisfaz uma clientela com um grau de exigência mediano. A crise tem “ajudado” à propagação da espécie. Por essa razão, mais notável se torna quando deparamos com casas que, podendo fazer vida segura nesse sector de mercado, teimam em tentar ir mais adiante, com ambição criativa.  

Um dia, alguém me disse que, em Vila Real, valia a pena ir ao Vilalva. De todas as vezes que por lá passei, nunca fiquei desiludido. Voltei uma destas noites com um amigo antigo, sem pressas, à volta de uma boa conversa, com livralhadas à mistura.  A lista das entradas é longa. A dos pratos é mais clássica mas, talvez por isso, muito segura. A lista de carnes tem, como referência central, a carne maronesa – de uma qualidade que, cada vez mais, se impõe, em especial no norte do país. Uma lista de seis pratos que têm o porco bísaro como elemento base é também apresentada, basicamente variando nos acompanhamentos.  As vitualhas foram acompanhadas por um Cistus reserva 2004, a um preço magnífico. Aliás, o Vilalva, sem ter uma carta muito extensa, tem por lá uns Douros de boa qualidade, a meu ver a preços de ontem (não lhes digam, por favor!).

Vila Real viveu, por muitos anos, da fama do Chaxoila e do Espadeiro, que agora navegam por diferentes águas. Hoje, vai-se por lá, com gosto, ao Museu dos Presuntos e ao Barriguinha Cheia. Mas é da maior justiça destacar o que o chefe João Rodrigues conseguiu fazer deste Vilalva, arrancando-o de uma modorra algo incaracterística e transformando-o num local de gastronomia cuidada. Para lá chegar, recomendo que tomem a direcção do shopping Dolce Vita. O restaurante está a umas escassas centenas de metros, através do “circuito”, na zona da Araucária.

Restaurante Vilalva
Rua Engº Joaquim Botelho de Lucena, 15ª
5000-586 Vila Real
Tel. 259 323 786

8.3.10

QUINTA DO OUTEIRO (Amarante)

Há muitas surpresas positivas, em matéria de gastronomia, através da província portuguesa. Porque a clientela de sustentação de grande maioria dessas casas é, em geral, local e conservadora em matéria de gostos, não se esperem grandes ousadias na oferta. Salvo excepções. Em compensação, a boa qualidade do produtos e a segurança no modo de os tratar podem oferecer sólidas garantias. É o caso desta bela aposta familiar que é a “Quinta do Outeiro” – um restaurante que vende também produtos da região. À entrada de Amarante, para quem vem do Porto, imediatamente antes do grande viaduto que tem a cidade à sua esquerda, surge um desvio que menciona Outeiro. Saindo do IP4, a cerca de 500 metros, seguindo essa mesma indicação, o restaurante fica num belo edifício isolado, numa elevação, com amplo estacionamento.

Fui lá pela primeira vez há mais de um ano, levado por um amigo da região, e não me arrependi das vezes em que repeti a jornada. Como neste último caso, num domingo. A casa estava cheia: famílias de uma fiel clientela local, que sabe ao que vai. Por isso, recomendo que reserve com antecedência.

Abriu-se a refeição com uma plêiade de pequenas entradas. Nos pratos principais, a casa oferece generosas meias doses, que chegam e sobram para um simples mortal. A relação qualidade/preço foi excelente.

Durante anos, Amarante teve no Zé da Calçada o seu único ex-libris gastronómico, com os doces da Lai-Lai, ao lado, a acompanhar. Com tradição de muitas décadas, no Largo do Arquinho, segue, com garbo, o Príncipe. Pelos tempos, apareceram casas como o Amaranto, o Almirante ou a Quelha. E, finalmente, surgiu a magnífica e “estrelada” casa da Calçada. Com esta Quinta do Outeiro nas imediações, Amarante é hoje uma terra gastronomicamente feliz.

Restaurante Quinta do Outeiro
Outeiro de Baixo
S. Gonçalo, Amarante
Tel. 255 010 092, 255 423 584



2.1.10

Memória - Imperial do Campo Pequeno

O cenário não era muito promissor, para quem entrava pela área da tasca, sempre apinhada de “classe operária” barulhenta, com o ambiente de lugares lisboetas do passado, tonéis ao fundo e cheiro a serrim. Com a cabeça quase a desaparecer, movimentavam-se atrás do balcão uma figura com óculos de fundo de garrafa e um outro empregado redondo e sempre sorridente, que aviavam das melhores “sandes” de presunto da cidade, A sala, separada por um tabique, tinha fileiras de mesas, lugares lado-a-lado e frente-a-frente, toalhas e guardanapos de papel, ambiente solto e galhofeiro ao almoço, mais familiar e “tête-à-tête” ao jantar. Na cozinha, cuja azáfama se seguia à distância, pontificava a simpática dona da casa, cara fresca arredondada, auxiliada, entre outras, por uma vetusta senhora que parecia saída dos tempo do Fernando Pessa – ele também um cliente habitual, tratado com grande carinho. O dono fazia a sua aparição junto dos “habitués”, que eram muitos, anotando falhas e lembrando o serviço em atraso. A lista era curta, verde por fora, num plástico sebento, com acrescentos à mão. A “Imperial” fazia jus ao nome com uma óptima cerveja, que acompanhava camarões, antecedendo os pratos “substanciais”, em travessas de alumínio, de que recordo uma recomendável vitela assada e o cozido do sábado. Por cansaço do dono a "Imperial" fechou já há alguns anos. É a vida!

1.1.10

PAINEL DE ALCÂNTARA (Lisboa)

Nos idos de 87/88, comecei a frequentar o "Painel". Estava aberto há pouco. Havia então por lá a Zezinha, sempre gentil, ao balcão, do lado esquerdo de quem entrava naquela casa pequena e esconsa, situada no dédalo operário de Alcântara, um pouco além do muito estimável "Alazão", perto do simpático, mas instável, "Cuidado com o degrau". Seco de carnes, agitado no gesto, educado na atitude, o Cardoso era (e é) um mouro de trabalho, que ia às 5 da matina ao mercado sacar, para nós, os melhores produtos. Tinha então o louro Zé na cozinha (onde ele próprio está hoje), que entretanto desapareceu da circulação, depois de termos conseguido, aí por 90, evitar-lhe por algum tempo a incorporação militar (numa conspiração de "bloco central" baseada em meras, mas consistentes, considerações egoístico-gastronómicas). O cardápio era simples: abriam o queijo e o presunto, com bom o vinho da casa, seguia-se uma lista farta, as pataniscas com o insuperável arroz de feijão a dominar (lembra-se, Alfredo ?), o excelente cabrito assado, o cozido das 4ªs e as favas guisadas com entrecosto, capazes de humilhar as primas de Tormes. Depois, o "Painel" alargou-se à casa ao lado, a Zezinha foi-se pela vida, o Cardoso casou, teve filhos, chamou os irmãos, houve noites com fados, a casa entrou (felizmente) na moda da noite lisboeta. Mas o nosso Cardoso não desistiu: ficou sempre pelo "Painel", não adormeceu à sobra do sucesso. Perdeu (contra o meu conselho) a aposta ousada de tentar recuperar a "Cesária", mas manteve incólume, com o seu trabalho, a grande qualidade da sua comida e o seu serviço ímpar. O meu amigo Cardoso é um grande Senhor da restauração lisboeta, um homem bom e um excelente profissional. Lisboa, por natureza, não reconhece méritos; se outra fosse a atitude da cidade, o Cardoso merecia uma medalha. Assim, tem apenas o nosso reconhecimento e a amizade sincera de quem o estima. Conhecendo-o, acho que lhe chega.
 
"O Painel de Alcântara", Rua do Arco, 7, 
Lisboa
Tel. 213 965 920

Estacione em casa...

15.9.08

CAFÉ DE S. BENTO (Lisboa)


Agora já abre à hora de almoço, mas eu, tenho de confessar, associo o Café de S. Bento à noite, a um jantar para o tarde, a uma ceia, no máximo a uma conversa à volta de dois copos, ao fim do dia. Recordo-me de lá ir há imensos anos, de sempre ter podido contar com um serviço extremamente delicado e competente, com simpáticos profissionais vestidos a rigor, sem falhas.

Depois, claro, com os bifes magníficos e imbatíveis em Lisboa – “à portuguesa” ou “à Marrare”; como alguém disse: o "rolls-beef" português – servidos com uma batata frita deliciosa (em duas versões, à escolha), acompanhados de vinho (lista pequena, mas de qualidade, com boas meias garrafas, o que começa a ser raro) ou uma cerveja “bem tirada”. Cuidado com o pão torrado e a manteiga de entrada, que são uma tentação. E há empadas, atenção! E queijo da serra, de grande qualidade.

Os frequentadores são de variadas e múltiplas “raças”. Durante a semana, passam por lá, quase sempre, espécimens da nossa operosa deputação parlamentar, a prolongar a noitinha, quase sempre em registo de grave intriga, depois da exaustante tarefa diurna, exercida a bem da pátria e de todos nós. Aos domingos (porque está aberto aos domingos!) é a vez dos executivos/advogados da Lapa/Estrela assentarem nos sofás as bombazines e as Burberry’s, com madames esfomeadas à ilharga, a agitar os doirados cabelos, sempre de olho na entrada dos amigos “de toda a vida”, no tardio regresso do fim de semana nos montes alentejanos, às vezes com filharada adolescente já a aculturar-se ao espaço e aos bifes. E todos os outros, os namorados em busca das mesas de “tête-à-tête”, os solitários maduros que lêem o jornal disponível (com vareta, à antiga!) e cocam com displicente ansiedade a porta, em busca de companhia conhecida, para pôr termo à solidão frente ao copo, o pessoal da Fundação vizinha, os jornalistas já cansados dos colegas do Snob, etc. Tudo num ambiente sereno (salvo algumas “tias” e deputados mais histriónicos, a jogar para a plateia), muito agradável, de “boa onda”. E sem pressas, sem ninguém nos “enxotar” das mesas, mesmo que nos alimentemos por horas a cafés (desde sempre acompanhados de “After Eight”, como o horário recomendado recomenda).

Sujeito a uma profunda renovação que dele nos privou por alguns meses, o “Café de S. Bento” fez um “lifting”, tendo agora uma nova decoração que lhe preservou o essencial da imagem, mas com mais bom gosto e modernidade, além de mais espaço. E continua a acolher fumadores (mas com excelente extracção de fumos), perdeu a irritante televisão (essa praga maior da restauração lusitana) e ganhou uma sala de jantar de grupos no andar superior, onde se não pode fumar. E agora até nos oferece parking, a 200 metros, coisa que, nos tempos que correm e na área onde se situa, não deixa de ser uma apreciável vantagem comparativa.

Restaurantes em Lisboa há muitos, alguns de grande qualidade e, quase todos, com uma lista muitíssimo mais variada. Mas a noite de Lisboa não seria o que é se deixasse um dia de contar com a excelente âncora de qualidade que é o “Café de S. Bento”.

Café de S. Bento
Rua de S. Bento, 212
Lisboa
Tel. 213 952 011

14.9.08

TRAVESSA DO RIO (Lisboa)



Confirmámos que, em Lisboa, não há uma só "Travessa".

Esse respeitável indicador de boas mesas que dá pelo nome – tão estranhamente simples que até pensei tratar-se de pseudónimo – de José Silva, no seu indispensável “Restaurantes de Portugal” (5ª edição!) fala-nos da “Travessa do Rio”, logo avisando que fica “num local um pouco escondido e difícil de encontrar”. De facto é, mas aqui vai a melhor decifração geográfica que me foi possível produzir: situa-se numa quelha à direita e ao fundo da primeira transversal da Avenida Gomes Pereira, indo da Estrada de Benfica ou da Avenida do Uruguai, depois de se passar um mar de automóveis estacionados; ao invés, claro, quem desce a Avenida Gomes Pereira, vindo da estação ferroviária de Benfica, deve entrar na última transversal à esquerda, antes de chegar à Estrada da Luz.

O lugar não é nenhum deslumbre como espaço. Faz parte daquele discutível gosto, muito luso-português, de ambiente a puxar para o “típico”, com telheiro “à maneira” e azulejos “a armar ao antigo” nas paredes. Tirado isto, temos duas salas espaçosas, com espaço muito limpo, um pessoal atento (ou teremos tido sorte com a educação e gentileza do Sr. Vítor, que nos calhou?) e uma belíssima comida.

Com excepção de uns torresmos menos bem cozinhados e por isso “borrachosos”, todas as entradas estavam excelentes – embora tivéssemos apreciado mais se nos perguntassem se as desejávamos, antes de as colocarem na mesa – e tudo quanto se experimentou estava feito com grande qualidade. Noto, em especial, o magnífico bacalhau à dr. Guimarães, uma simpática homenagem a um desaparecido crítico de “A Capital”, cliente cuja memória a casa consagra também através de um quadro com o recorte elogioso. A parede acolhe também crónicas de Francisco José Viegas na “Visão” sobre a culinária da casa, embora tivéssemos ouvido queixas (Ó Francisco, pense bem!) da sua ausência em tempos mais recentes, por virtude da “Travessa do Rio” ter optado por ser uma “smoking-free area”.

Crónicas e relatos lidos sobre a casa registam especialidades como arroz de pato e cabrito assado, para além de óptimo peixe.

A garrafeira é excelente, com preços honestos e boas sugestões trazidas à mesa.

Uma nota final, numa sobremesa: o pudim de ovos, dito “abade de Priscos”, não o era, de facto, embora seja igualmente muito bom.

A simpatia de não ter sido cobrado um cálice de Porto a uma inesperada visitante à nossa mesa demonstra grande profissionalismo e atenção. São gestos como estes que qualificam um serviço. O que abrem a vontade de regressar, tão breve quanto possível.

E desta forma confirmámos que, para além da sofisticada “Travessa”, no Convento das Bernardas, para os lados de Santos, onde hoje preponderam a Vivianne e o António – e que muito se recomenda –, ela própria originada na mais “belga” casa anterior com o mesmo nome, perto de S. Bento, então ainda com a Sofia (hoje a liderar, com muita qualidade, o vizinho “Guarda-Mor”), existe em Benfica uma outra “Travessa” que merece bem uma visita.

Travessa do Rio
Travessa do Rio, 6A
Tel. 217 160 543
Lisboa

12.9.08

SALSA & COENTROS (Lisboa)


Foi já há uns anos que, naquela que é a evolução natural da vida e das coisas, um excelente profissional que havia conhecido na “Charcutaria” de Campo de Ourique, e, mais tarde, na sua segunda encarnação na Rua do Alecrim, decidiu voar por si próprio e abrir aquele que é hoje um dos mais seguros restaurantes alentejanos de Lisboa. O que, diga-se, não era obra fácil, porque esse era um “nicho” de gastronomia regional que contava já com um leque de excelentes casas. O sucesso do empreendimento, hoje já consagrado por uma clientela fiel e por um nome reputado, é a prova mais cabal da qualidade deste magnífico restaurante.

Fica no bairro de Alvalade, numa esquina à direita, na única perpendicular à zona da Avenida do Rio de Janeiro que liga o largo no topo da Avenida da Igreja à Avenida do Brasil.

Nas entradas, destacam-se as tradicionais empadinhas de galinha, a perdiz de escabeche ou os pezinhos de porco de coentrada. Depois, segue-se o Alentejo em todos o seu esplendor, como uns choquinhos em azeite e alho ou uma sopa de cação. Mas também com óptimos filetes de garoupa e até uma transmontana alheira de Fiolhoso. Muito cuidada lista de vinhos, com equilíbrio certo entre Alentejanos e Douros. Desta vez não se optou por sobremesas, mas experiências anteriores deixaram memória muito positiva dos doces.

Este é um restaurante que se recomenda sempre, do qual nunca ouvi um comentário negativo – do ambiente, ao serviço ou à qualidade da comida. O que é notável, nos tempos que correm!

Salsa & Coentros

Rua Coronel Marques Leitão, 12
Lisboa
Tel. 218 410 990

8.9.08

TOCA DO LOBO (Vila Real)

Quem entra em Vila Real, pela IP4, vindo do Porto, deve sair para Parada de Cunhos. Depois da rotunda, toma, durante pouco mais de 200 metros, a estrada antiga em direcção ao Porto. No fim de uma curva prolongada à direita, logo se encontra a Toca do Lobo, numa moradia separada da estrada por um pequeno quintal.

A Toca do Lobo tem o aspecto certo para se lhe poder chamar “casa de pasto”. A comida é muito simples, a lista (oral) escassa e não se esperem quaisquer requintes. Da cozinha da D. Guilhermina saem, no máximo, três opções, de que o “prato forte” é sempre o cozido à portuguesa diário, com as tripas aos molhos e a vitela assada como regulares alternativas. Pergunte pelo telefone se há o bacalhau da casa ou cabrito. Na época própria há alheiras de fabrico próprio. O vinho da casa é de boa qualidade.

O ambiente tem um registo bem popular, singelo e totalmente despretensioso, com os espaços onde se come decorados com pratos antigos, com madeira nos lambris.

Já lá não ia há vários anos. Tudo continua praticamente na mesma, como se o tempo por ali não passasse, tal como o trânsito que agora já ali não passa em direcção ao Marão.

Toca do Lobo
Parada de Cunhos
Vila Real
Tel. 259 322 741

4.9.08

MUSEU DOS PRESUNTOS (Vila Real)

Se não é um frequentador regular, como é o meu caso, mas apenas episódico, e está à espera de grandes novidades na ementa, desengane-se. Nesta casa pratica-se uma comida regional sólida, com pratos há muito testados e que são uma espécie de rosto da sua tradicional oferta gastronómica. Por isso, a lista chega a parecer algo monótona, mas, se bem lida, vê-se que tem um equilíbrio próprio, dá grande segurança e oferece opções muito diversas. As incursões do Silva pela zona do Barroso permitem-lhe assegurar um permanente abastecimento de óptimos produtos da região, ao mesmo tempo que o Douro é a zona forte da magnífica garrafeira, com preços bastante razoáveis, em especial para o que por aí se vê. O presunto é sempre de primeira qualidade, a vitela barrosã é a base da bela “posta”. Não se espraie muito pelas apetitosas entradas, porque tem de estar disponível para o que vai seguir-se. O serviço pode ser um pouco lento em dias de casa cheia, mas é sempre simpático e acolhedor. Um “senhor” restaurante, a meu ver o melhor de Vila Real – que me desculpem os outros, mas a culpa é exclusivamente deles! Uma alternativa: se as mesas dos "habitués", à esquerda de quem entra, não estiverem preenchidas, o que é raro, pode provar apenas uns petiscos com vinho da casa, em malga... 
Museu dos Presuntos

Avenida Cidade de Ourense, 43
Vila Real
Tel. 259 326 017


3.9.08

Águas passadas no DOC


DOC
Folgosa do Douro
Estrada Nacional 222, entre a Régua e o Pinhão, na margem esquerda do Rio Douro.
Tel. 254 858 123

O entusiasmo com que partira a caminho do DOC foi de tal forma afectado pelo choque da informação recebida que abrandei a velocidade e quase parei o carro. Um jantar no DOC, sem vinho?!

Pois era essa a proposta, nem mais nem menos: uma refeição de degustação, só com águas e total ausência de alcoóis. Confesso que a hipótese de desistir chegou a passar-me pela cabeça e que só o facto de haver um compromisso fixado com antecedência, e não querendo ofender o autor do alvitre – um arquitecto de “primeira água” –, fez com que a minha relutância fosse atenuada.

A imagem que eu mantinha do DOC era muito positiva, pela boa memória de uma visita passada. Críticas lidas ao longo do ano haviam-me alimentado o desejo de regressar e rever a cozinha de Rui Paula, que me diziam estar cada vez mais imaginativa, com uma rara sustentação de qualidade. Mas, tenho de confessar, desse desejo também fazia parte integrante a possibilidade de acompanhar a comida com algum ou alguns dos excelentes Douros que integram a magnífica lista de vinhos que o restaurante sempre apresenta.

O DOC tem uma situação privilegiada, na margem esquerda do Rio Douro, a meio desse percurso mágico que é a sinuosa estrada entre a Régua e o Pinhão, bordejada de vinhas e nomes de quintas, algumas a fazerem-nos recordar rótulos de belas produções vinícolas. O local é magnífico, em dia ameno pode-se utilizar o deck exterior. Dentro, telas de plasma na sala permitem seguir os trabalhos na cozinha, um exercício de transparência que nos aumenta a confiança. Uma área para amenizar a espera foi entretanto criada, com um piano a sugerir interessantes potencialidades e a assegurar que nunca o espaço virá a ser perturbado por uma qualquer “musak” ambiental. E, sobre tudo isso, a certeza de podermos beneficiar de um cenário deslumbrante, no centro de uma paisagem de uma serenidade única.

Tudo bem, tudo isso era verdade, mas a minha perplexidade mantinha-se. A ideia continuava a ser verdadeiramente bizarra: um jantar degustação, sem vinhos, só com águas?! Não sou fundamentalista, não sou um ansioso de vinho, passo imensos dias sem provar uma gota de álcool. Mas no DOC, no coração do Douro, um jantar sem vinho soava-me como que ofensivo a esses “montes pintados” que Araújo Correia nos descreveu.

Foi num misto de perplexidade e curiosidade, com a primeira a superar em muito a segunda, que entrei no restaurante. Ainda lancei, sem sucesso, a ideia de, pelo menos, “abrir” com um gin tónico, como que a criar lastro etílico para sustentar o que aí viria. Fui logo desiludido por vozes suavemente reprovadoras, que me alertaram para os riscos de afectação da pureza gustativa, a qual deveria ser mantida numa espécie de virgindade profiláctica, indispensável ao acolhimento dos gozos que se seguiriam.

E, pronto, lá fomos para a mesa, uma dúzia de convivas, a maioria desconhecidos, uns aparentemente mais convictos das virtualidades do exercício que outros – comigo, francamente, bem ancorado no campo dos últimos.

Tudo começou por um período inicial de carência psicológica, em que um ou outro lá ia recordando a falta do vinho à mesa. A sólida constatação de que o único líquido permitido seria a água provocou então graçolas nervosas, com os mais imaginativos a aventarem o recurso limite a uma “aguardente” ou a uma “água-pé”.

É que, de facto, eram as águas as rainhas da noite. Águas diferentes, umas lisas outras gasosas, umas mais “planas” outras mais “profundas”, algumas algo “agressivas”. Tivemos até o privilégio de provar umas nórdicas de belo design, mais frescas umas que outras. Sempre águas, claro! Apenas uma água era portuguesa e, para mim, totalmente desconhecida.

Durante o repasto, as águas sucediam-se, em copos diferentes, cada uma a acompanhar as (creio!) oito propostas gastronómicas, que não estavam sequer listadas à partida. Um simpático “expert” – reputado conhecedor de vinhos, imaginem! – procurava ajudar-nos a identificar, não apenas a singularidade de cada uma das águas experimentadas (sobre cujas qualidades comparadas alguns dos convivas já ousavam, a medo, “mandar bitaites”), mas igualmente a razão pela qual essa mesma água fora seleccionada para acompanhar tal prato, em função do seu potencial para combinar, por contraste ou complemento, o produto cozinhado.

E foi então que se foi passando essa coisa extraordinária que foi o facto de, sem disso termos real consciência, a ausência do vinho ter deixado praticamente de constituir tema da conversa, muito menos de qualquer angústia. A refeição, regada a águas, ia-se impondo naturalmente, perante o deslumbre dos sentidos, a variedade das escolhas propostas, a riqueza das combinações que nos eram oferecidas.

Duas evidências ficaram claras, na minha perspectiva.

A primeira foi o facto da ausência do vinho nos ter tornado, a todos, muito mais atentos aos sabores do que nos ia sendo apresentado, não nos “distraindo” da essência dos paladares, obrigando a que nos concentrássemos, de forma mais profunda, em cada componente do que nos era sugerido. Por mim, pude constatar que o vinho, em toda a sua imorredoura glória de factor criativo e de qualificador global do gosto, pode ter o “defeito” colateral de nos afastar do esforço de procura de construção/desconstrução do que estamos a saborear, da especificidade de um molho, da ténue diferença gustativa de um vegetal, da “nuance”, quase imperceptível, de um produto sujeito a um tratamento muito sofisticado. Digo isto porque, talvez pela primeira vez desde há muito, consegui descortinar e isolar, combinando-os depois muito melhor, os componentes que o Chefe ia indicando como constituintes das propostas gastronómicas que surgiam.

Quererei dizer, com isto, bem no coração deste nosso Douro, que o vinho passou a ser algo dispensável? Longe disso: o vinho é, cada vez mais, o grande “sublinhador” criativo dos paladares, o provocador de efeitos que se acrescentam aos alimentos e deles consegue extrair novos e decisivos matizes. E tem, além disso, uma importante carga eufórica, que excita as almas e alegra os tempos, particularmente se for de qualidade e se tomado com conta, peso e medida – e, claro, se as garrafas forem abertas com antecedência adequada e se servido à temperatura requerida.

Mas esta interessante experiência teve a virtualidade de nos mostrar que, numa refeição, há mais vida para além do vinho, se bem que a vida e a refeição sejam sempre muito boas com ele à frente.

Uma segunda constatação também se impõe: a virtualidade desta prova, sem o recurso ao complemento do vinho, só teve o sucesso que teve pelo facto de ter sido apoiada na qualidade excepcional de todos os pratos apresentados, que a ausência do álcool permitiu que ganhassem autonomia própria, deixando-os “brilhar” por si mesmos. E foi a circunstância dessa qualidade nunca ter decaído ao longo do jantar, de prato para prato, que conseguiu garantir um apego contínuo e sustentado do nosso paladar àquilo que íamos degustando, sem fazer ressaltar a “saudade” do travo adjectivo do vinho. Com uma refeição banal, por melhores que fossem as águas, tudo não teria passado de uma grande “seca”… E eu, tenho de admitir, fui menos capaz do que outros companheiros desta agradável jornada de ser sensível a algumas características específicas que eram atribuídas e identificadas em cada uma das águas provadas.

Dito isto, vamos ao principal: Rui Paula provou-me definitivamente, nesta memorável noite, que é hoje um dos chefes portugueses com maior criatividade, que consegue aliar a sofisticação de uma cozinha contemporânea de grande nível e excelente apresentação com algumas notas de rodapé gustativo, em que faz orgulhosa questão de trazer-nos à lembrança sabores regionais, na maioria dos casos tipicamente nortenhos, umas vezes de forma subliminar, outras de modo plenamente assumido. Rui Paula consegue assim demonstrar-nos – e entendo que outros deveriam aprender com isso – que o cosmopolitismo sofisticado de uma cozinha não é incompatível com o recurso a citações sensoriais ligadas às raízes geográficas de onde se opera. Pelo contrário, a originalidade do que nos propõe no DOC só ganha com a chamada à mesa desses mesmos elementos.

Num circo, trabalhar sem rede é um risco que enobrece a arte. Num restaurante, ousar um menu sem o recurso ao complemento de vinhos será talvez a prova mais provada de que a grande gastronomia também se constrói na autoconfiança e na certeza de que a qualidade se imporá sempre por si própria. Quando exista no trabalho de um grande Chefe, como é o caso de Rui Paula.

A boa disposição com que saí deste exercício – que, a bem dizer, deveria ter o “mecenato” da Brigada de Trânsito da GNR – leva-me a ecoar a já célebre frase de um velho oficial de Marinha, pouco navegado nas especificidades da gramática, que a nossa História acolheu como uma patética anedota política, quando um dia quis qualificar uma sua qualquer alegria pública: “só tenho um ‘adjectivo’ para expressar o que hoje aqui senti: gostei!”.

A foto que ilustra esta nota foi amigavelmente sonegada ao Francisco.

2.9.08

FLOR DE SAL (Mirandela)



Se vem da A4 em direcção a Mirandela, volte à esquerda antes de atravessar a ponte nova sobre o Tua. É um espaço que surpreende, não apenas pela beleza do panorama que se disfruta do edifício, mas, principalmente pela grande qualidade do que apresenta, numa ousadia de propostas, onde a azeitona e o azeite têm um papel central… até na sobremesa! E atenção aos pães, variados e deliciosos! Aqui pratica-se um casamento, às vezes nos limites da aventura, entre alguns produtos tradicionais da região – estamos na “capital” das alheiras, embora a famosa Adelina já tenha desaparecido há muito – e outros componentes, menos expectáveis nas combinações anunciadas. Mas tudo sempre com sucesso, posso assegurar. Uma atenção especial merecem os pratos com carne de porco, mas a vitela também é soberba e os bacalhaus excelentes. Bela garrafeira, naturalmente apoiada no Douro, mas com algumas boas surpresas bem estranhas à região. Uma “flor” muito rara na restauração transmontana. Como diria o Michelin, vale bem o “détour”.

Parque Dr. José Gama
Mirandela
Tel. 278 203 063

1.9.08

CHARCUTARIA (Lisboa)

A ideia era almoçar no Stop do Bairro, em Campo de Ourique, lugar que o João Paulo Guerra me atira recorrentemente à lembrança, achando que só opto por soluções "finaças". Mas estava fechado para férias. E já a caminho do vizinho e sempre "reliable" Coelho da Rocha, dou de caras com o Sr. Martins, a quem pergunto: "A sua Charcuteria daqui de Campo de Ourique ainda serve almoços ?". Servia. Já lá não ia há vários anos. E não me arrependi. 

Foi este pequeno espaço, com menos de 15 lugares, que antecedeu a abertura do restaurante bem maior, hoje existente na Rua do Alecrim. O ambiente é despretensioso, quase de leitaria de bairro, mas a qualidade da oferta continua excelente. Comida alentejana, doses pequenas mas cuidadas. Boa lista de vinhos, com Douros e outras regiões, que no passado estavam pouco presentes. Algumas sobremesas faltaram à convocatória, mas as existentes eram genuínas. A “velha” Charcutaria, de Campo de Ourique, continua a recomendar-se. Ainda bem, amigo Martins!

Charcutaria
Rua Coelho da Rocha, 97
Lisboa
Tel. 213969724

29.7.08

Barca Velha 1983

Hoje, almoçando sozinho em casa, rodeado de jornais, na maravilha de silêncio que pode ser um jardim neste "Inverno" de Brasília, foi-me servido um vinho que, logo ao primeiro paladar, me pareceu estranhamente bom. Degustei segunda vez: era, de facto, excepcional. Suave logo ao primeiro gole, macio na "mastigação", mas forte no final, sem ser agressivo e sem acidez excessiva.

Como, na véspera, havia mandado abrir um simpático Quinta do Crasto, que me havia parecido banal, o que atribuí à abertura tardia, pensei que fosse a noite que o tivesse melhorado.

Como diria o Augusto Gil, na "Balada da Neve": "fui ver". E não é que tinha acabado de iniciar uma garrafa de Barca Velha 83, pequena safra comprada nos idos de Londres, nos anos 90 !

O que aconteceu ? Numa visita de rotina à minha adega, há dois dias, tinha apontado, para ilustração do excelente funcionário que me ajuda na respectiva gestão, uma garrafa isolada de um outro vinho, de que só restava uma garrafa, pedindo que o trouxesse para quando eu almoçasse a sós. Ou eu apontei mal ou ele percebeu mal.

E o escolhido acabou por ser o Barca Velha 83. E que têm os leitores a ver com tudo isso ? Nada. Apenas queria transmitir-lhes a certeza de que uma surpresa resultante de um engano (bem caro!) pode transformar uma refeição banal num almoço principesco.

Arrependido? Qual quê! Só se vive uma vez ! E, já agora, garanto, o Barca Velha 83 está magnífico !