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27.6.16

"Pedra Furada" (Barcelos)



Viandantes e mesários

Tenho um amigo que aplica a palavra «viandante» a quem goste de ir à procura de locais com boa carne. É claro que se trata de uma corruptela sinonímica. Os viandantes são os caminheiros. Mas por que diabo são chamados aqui, a um espaço de notas sobre restaurantes?

Na vida, passei três vezes pelo «Pedra Furada». A primeira, no final dos anos 70. O espaço era algo diferente e chamava-se ou chamavam-lhe «Maria da Pedra Furada», por virtude do nome da proprietária. Terá nascido de uma tasca criada há 70 anos, passando, em 1974, a restaurante. Ficou-me na memória ter já então uma cave de vinhos afamada, num tempo em que, pela província, isso não era muito vulgar. Ainda hoje ela se recomenda, muito embora, nesta última visita, tenha me tenha satisfeito com o muito razoável tinto da casa.

A aldeia de Pedra Furada fica a 5 kms a sul de Barcelos (melhor, de Barcelinhos, para quem conhece as peculiaridades da área), na Estada Nacional 306. É um espaço rústico, com um serviço profissional e atento.

O proprietário, António Herculano, é uma figura hospitaleira que, entre a chegada das vitualhas à mesa, nos fala com entusiasmo da mudança profunda que o seu projeto comercial sofreu, por virtude do local se ter tornado num afamado ponto obrigatório de passagem de peregrinos no Caminho de Santiago de Compostela. Daí os viandantes, percebem agora?

Ao lado do restaurante, num espaço cosmopolita, cruzam-se diariamente gentes de todas as partes do mundo, contando-se bem para cima da centena as nacionalidades visitantes. Mas, a bem da verdade, não me parece que esses romeiros, mais frugais, procurem o que a mim me levou ao “Pedra Furada”: a sua sólida comida regional.

No rol de entradas, salientam-se as Papas de Sarrabulho e as Tripas de Porco. Quem não for usado, pode ficar pelas pataniscas, pelo chouriço ou pelas sopas.

Nos peixes, a oferta fresca não é grande (linguado, pescada ou robalo), mas realça-se um naipe de quatro Bacalhaus – à moda da casa, com broa, cozido ou assado – que são uma das marcas do restaurante. Provou-se o primeiro, “à Narcisa”, que estava de grande qualidade, demolhado ao ponto, lascando como deve ser.

Das carnes, passando por entre a Pá de Porco, os Rojões e os clássicos bifes e escalopes, foi-se para o Cabrito Assado no Forno, que é também um conhecido cartão de visita. Não nos arrependemos, tinha ótimo sabor, embora a hora tardia da visita o tivesse trazido um pouco seco. Por encomenda, há por lá o famoso Galo Assado, bem típico da região, o Arroz de Cabidela e o Bacalhau Dourado.

Uma lista de sobremesas simpática, onde brilha o Pudim Abade de Priscos, fecha o repasto. Mas notei um Pudim de Laranja, uma Tarte de Amêndoa, além dos clássicos (Mousse, Leite Creme, etc). Não fomos para os Mexidos (um doce limiano com pão, frutos secos e mel) mas para umas Rabanadas de leite (também havia de vinho do Porto), porque, neste domínio, o Natal é quando o cliente quiser.

Em suma: não são muitas as novidades, tendo a casa optado por algumas sólidas “âncoras” que, em especial nos fins de semana, têm forte procura e recomendam reserva.

Por mim, sempre que puder, não como viandante mas apenas como “mesário” (outra corruptela sinonímica, desculpem lá!), passarei por este clássico e simpático pouso minhoto.



Restaurante “Pedra Furada”
Rua de Santa Leocádia, 1415
Pedra Furada, Barcelos
Fecha 2ª feira ao jantar
Tlf. 252 951 144
Preço médio: 20 euros
Wifi
Estacionamento fácil

"O Poleiro" (Lisboa)



Nos restaurantes, como na vida, tenho dias.
Por vezes, agrada-me ser surpreendido, entrar num espaço desconhecido, ser confrontado com uma coreografia diversa dos rituais banais de acolhimento, com gestos que fogem ao template aprendido nas escolas de hotelaria. Gosto de propostas de novos sabores, ou de sabores tradicionais tornados distintos, desde que isso não signifique a tentativa de ser exótico a todo o custo.
Outras vezes, contudo, prefiro descansar na rotina, nas caras conhecidas que me recebem, por mesas que me falam de conversas passadas, às vezes com amigos que não voltam. Na lista de que sei o essencial de cor, antecipo sabores em algumas das propostas que leio, como quando, em velhas casas de família, aguardamos uma certa sopa que fumega na terrina, rescendendo, como dizia o Eça, de uma forma deliciosamente idêntica, ao longo dos anos. É o conforto preguiçoso do conhecido, que irrita alguns obsessivos do novo.
Sempre que entro no Poleiro reacende-se-me este último sentimento, embora, para o leitor, a visita possa, ao invés, corresponder a uma primeira e marcante experiência.
Conheço aquela casa há mais de três décadas, exatamente tantas quantas ela leva de existência. O Manuel e o Aurélio Martins ali estão, como sempre, serenos, sorridentes, de um profissionalismo límpido e aparentemente simples. Porém, não obstante a sustentação evidente da qualidade, o universo cada vez competitivo da restauração é um desafio diário.
O restaurante, que continua pequeno, cresceu daquelas que foram as escassas mesas na sua fundação. Quase que se poderia dizer que a decoração, sem arrebiques ou pretensões, muito acolhedora e prática, prenuncia a cozinha portuguesa genuína que a casa oferece. Nela se cruzam influências minhotas e transmontanas, com a presença dos sabores do Alentejo em algumas das escolhas.
À entrada, sobre o balcão, um estendal variável de vinhos é-nos decifrado pelo saber ímpar do Aurélio, sempre atento às novidades enológicas que interessa reter, cobrindo bem as principais regiões.
Na cozinha, orientada pelo Manuel, mestre na arte da grelha, responde-se à carta que, com os anos, cresceu e ficou mais diversa, reforçando no cliente o embaraço da escolha.
Comece-se por atentar nas entradas: contei 14 da última vez que lá passei. Destaques? O misto de cogumelos silvestres frito com alho, a alheira fumada do Barroso, a morcela de Idanha com laranja e, dois clássicos por que optámos, os sempre excelentes peixinhos da horta e os ovos mexidos com espargos e farinheira.
Nos pratos, os peixes são sempre irrepreensivelmente frescos, sendo as carnes muito bem tratadas. É difícil optar, confesso. Fomos por um arroz de vieiras, com estas numa textura certa, e por umas pataniscas de camarão com arroz de lingueirão, que estavam deliciosas. Um prato clássico da casa é a massada com cabeça de garoupa e gambas, como também o é o arroz de línguas de bacalhau com coentros.
Nas carnes, decidimos pedir umas iscas na frigideira à portuguesa, por ali sempre fiáveis. Mas muito deixámos de parte, embora quase tudo já testado no passado, com grande proveito: por exemplo, as costelinhas de porco na grelha com açorda de coentros, a ilhada de vitela barrosã no caçoilo com arroz de feijão ou o arroz de costela em vinha de alhos com grelos. Ah! E a famosa barriguinha de porco grelhada, com massa e feijão. Mas há por ali muito mais!
As sobremesas (se o leitor conseguir lá chegar…) não são muitas, mas são sempre de qualidade: o mimo de chocolate, o pudim do abade de Priscos e o pudim de abóbora com coco foram as nossas escolhas, entre outras possíveis. Os queijos beirões e alentejanos podem também fechar a refeição.
Volto ao que disse no início: saber aquilo que nos espera ao abrir uma porta é um sentimento muito agradável. O Poleiro, para mim, continua a ser exatamente isso.

Restaurante “O Poleiro”
Rua de Entrecampos, 30 A
1700-158 Lisboa
Tel. (+351) 217 976 265
www.opoleiro.com
Fecha ao domingo

·       Há quase trinta anos, eu morava ali perto. O Aurélio ligava-me, quando a mesa pretendida vagava. Mal eu acabava de me sentar, “pousavam” os peixinhos da horta.
·       A rua de Entrecampos, ali ao lado da avenida da República, é um destino algo improvável para um bom restaurante. O que só prova que a qualidade, quando existe, tem muita força.
·       Nunca me recordo de ter pedido um vinho no Poleiro. Sem surpresas más, na qualidade e preço, deixo-me sempre guiar. Nunca me arrependi e aprendi muito.
·       A culinária da restauração lisboeta tradicional deve muito à cultura gastronómica galega. No Poleiro, um restaurante feito por gente do Norte, sinto frequentemente essa influência.

27.5.16

Restaurante Galito (Lisboa)




Alentejo sem atravessar o Tejo

A cozinha alentejana tem, nos dias de hoje, vários poisos em Lisboa, alguns com muito boa qualidade. Dentre as cozinhas regionais portuguesas, é seguramente a que está mais bem representada na capital. O “Galito”, ali à entrada de Carnide, é, creio, o mais antigo restaurante alentejano de Lisboa. Salvo erro, aliás, o único que mantém uma carta com 100% de culinária do Alentejo. 
O espaço que o “Galito” hoje ocupa é o terceiro que lhe conheço. É mais moderno e confortável do que os dois anteriores. Porém, devo dizer que tenho alguma saudade da primeira casa: uma sala minúscula, onde era dificílimo conseguir mesa e onde conheci a cozinheira originária, a Dona Gertrudes que, muito provavelmente, foi a maior figura de sempre da culinária alentejana por terras de Lisboa. A Dona Gertrudes já não oficia há muito pela cozinha do “Galito”, mas sempre que olho o sorriso amável com que o filho, o Henrique Galito, me recebe naquela casa, que visito há décadas, sinto a certeza de que o testemunho segue em boas mãos.
O grande “drama” dos restaurantes alentejanos é que a transição entre as entradas e os pratos às vezes é difícil de estabelecer, tal é a abundâncias das primeiras, que nos começam a chegar à mesa logo que nos sentamos. As favinhas, a perdiz de escabeche, a salada de coelho, as empadas, os torresmos, os míscaros, o queijo fresco e tutti quanti fazem uma refeição, se nos distrairmos, com o belo pão alentejano a ajudar.
Resolvemos evitar os “clássicos”: açorda de coentros, pezinhos de porco de coentrada, migas de espargos ou à alentejana, com entrecosto ou lombo de porco frito, ou o ensopado de borrego.
Depois de uma boa dose de entradas, fomos para uma açorda de perdiz, por sugestão do Henrique. Não nos arrependemos. Uns carapauzinhos com arroz de coentros e uma costeletas de borrego compuseram a escolha, tudo num registo muito agradável.
A lista do “Galito” é bastante farta, mas a minha experiência nas casas tipicamente alentejanas aponta para que nos deixemos “conduzir” pelas sugestões da casa. Desde que tenhamos razões para nelas confiar, como é o caso.
Naturalmente, a carta de sobremesas segue a oferta magnífica que a doçaria do Alentejo sempre nos traz. Foi-se por uma sericaia, com a ameixa tradicional, e uma encharcada. Mas também por lá se pode encontrar o bolo rançoso, o pão de rala e outras doçarias do Sul. A única “traição” em favor do Norte é o pudim Abade de Priscos, em que o “Galito” pede meças.
A carta de vinhos é bastante completa, cuidando o Henrique em não se limitar aos alentejanos, embora eu lhe peça sempre sugestões de produções dessa região. Notei continuar a haver por ali excelentes vinhos do Douro.
Uma nota final. Para além da eterna simpatia e educação do Henrique, das últimas vezes que passei pelo “Galito” ficou-me uma impressão menos agradável do serviço às mesas: demasiado “à vontade” e displicente, com excessiva conversa e “bocas” em voz alta. E não fui a única pessoa a notar isto, diga-se.
De todo o modo, como desde o primeiro dia, e já lá vão muitos anos, voltarei ao “Galito” sempre com imenso prazer.

Restaurante Galito
Rua Adelaide Cabete 7B
Carnide, Lisboa

Tel. 217 111 088
Reserva recomendada
Fumadores
Preço médio: 25 euros

26.3.16

Lisboa - "Vela Latina"


A olhar o rio

Como sucede em todas as capitais, há em Lisboa um escasso grupo de restaurantes que eu arriscaria designar por “oficiosos”. São locais onde os empresários ou os políticos se encontram, às vezes uns com os outros, onde se fazem negócios e se afinam entendimentos. Alguns desses espaços atraem, pela sua fama, alguma clientela turística, outros preservam, nas suas frequentes “boiseries”, uma existência mais discreta, apoiados numa “fauna” oriunda de escritórios de advogados e de figuras das empresas. Porque esses setores profissionais são naturalmente dados a almoços “leves”, a condição de haver uma boa oferta de peixe é essencial, o que, em alguns casos, não é incompatível com uma oferta culinária mais criativa e “pesada”.

O menos “típico” desses restaurantes é talvez o “Vela Latina”, que existe desde 1988. Porquê? Desde logo porque, num país onde muitos restaurantes tradicionais vivem de luz artificial, ali há luminosidade natural, vidraças e esplanada sobre a zona do Tejo e da Torre de Belém, num ambiente de decoração que nos traz o mar. Depois, porque a amplitude do espaço permite ter conversas discretas, que podem ser iniciadas na zona de espera do bar e, se necessário, prosseguir numa excelente sala privada.

O “Vela Latina” parece imune ao tempo. Sem ser moderno, mantendo mesmo um mobiliário algo datado, o seu espaço projeta uma leveza agradável. É-se por lá servido com uma delicadeza profissional saudavelmente antiga, discreta, atenta, aconselhadora, sem subserviência nem o “casual arrogant” de outros locais. E, coisa rara nos tempos que correm, há lugar para estacionar o carro, uma verdadeira bênção em Lisboa.

Passei por lá há escassos dias, para um almoço. As ofertas sobre a mesa não eram muito criativas: queijo fresco e salmão, com pequenas torradas. Mas o essencial estava para vir.

A lista é muito equilibrada, com peixes e mariscos em destaque: filetes de pescada, lombo de peixe galo com endívias, rolinhos de linguado com gambas, peixe fresco do dia – robalo, pregado, dourada, linguado, cherne, dourada. Hipóteses eram ainda os “clássicos” sopa ou salada de lavagante, o arroz de coentros com lagosta ou a cataplana rica do mar. Antes, claro, poder-se-ia ter escolhido um creme de santola, raviolis de lagostins ou umas ameijoas à Bulhão Pato. Nos pratos do dia, ainda nos peixes, havia lombinhos de pescada com alcachofras.

Comemos duas sopas: creme de courgettes com coentros e um creme de espargos verdes, ambas bem. Depois, seguimos para um bacalhau com migas de pão de milho,  os rolinhos de linguado e uma empada de caça com castanhas e salada verde. Tudo estava a preceito, embora sem deslumbre, com o bacalhau com parcimónia sábia no sal e a empada muito saborosa, se bem que a salada verde que acompanhava a empada pudesse ser mais viçosa. Nas carnes, ainda havia uns medalhões de porco grelhados, um “carré” de borrego e “entrecôte” e lombo de Black Angus. A apresentação dos pratos é “conservadora”, tradicional.

A oferta de sobremesas era muito tentadora, com uma pastelaria da casa de que se provou um ótimo pastel de nata, uma mousse de chocolate belga no ponto certo de textura e um “cheese cake” de qualidade. Mas muito mais havia por lá.

Uma boa, equilibrada e informativa lista de vinhos, a preços razoáveis, ajudou bastante a refeição.

Gosto muito do caráter clássico do “Vela Latina”. Não há por ali surpresas, há constância e um profissionalismo sólido.

“Vela Latina”
Doca do Bom Sucesso
Lisboa
Tel. 213017118/910174024
Zona de fumadores
Encerra aos domingos
GPS: 38°41’34.48”N 9°12’47.27”W
Preço médio: 35 euros

29.1.16

Chaves - Restaurante Carvalho



Chaves do pecado…

Comecemos pelo óbvio: o principal pecado que Chaves convoca, para o que aqui nos traz, é o da gula, como não podia deixar de ser.

Outros pecados por lá haverá, estou certo, não perpassasse pela cidade aquele ambiente de transgressão que as urbes raianas acarretam sempre consigo, vindo dos tempos das travessias clandestinas das fronteiras, com a política ou a necessidade económica como motivo. Já vai longe, felizmente, a era do contrabando em que se ia à Aninhas Vitorino ou das combinas, às mesas do Aurora ou do Comercial, sobre a forma de facilitar a um amigo a passagem para o outro lado de Vila Verde da Raia. Hoje, nesta terra de generais da Liberdade, como foram Sousa Dias ou Costa Gomes, o único “contrabando” é o das calorias que a culinária local, apoiada nos excelentes produtos da região, nos impõe.

Mas este texto é sobre a cidade ou sobre um restaurante, impacientar-se-á o leitor? É sobre o “Carvalho”, um restaurante moderno “à antiga”, que, há vários anos, considero ser a melhor mesa da cidade, com uma cozinha genuína e de grande qualidade, um local de onde nunca saí desiludido.

Voltei lá, há dias. Decidi, por esta vez, assentar a refeição exclusivamente nas carnes, se bem que a oferta de peixe (sável, garoupa, linguado, rodovalho, congro, pescada e, claro, bacalhau) fosse muito prometedora.

Começou-se com uma alheira (feita na casa), de grande qualidade, e com salpicão no borralho, com acompanhamento de grelos. Resisti ao presunto de Chaves, um dos melhores do país, e à linguíça assada.

Como pratos “de resistência” foram os três que pareceram representativos.

Uma vitela no tacho com castanhas fez honra à carne da região, com uma textura excelente, um molho muito saboroso, a que as castanhas se ligavam à perfeição. Depois, provou-se o cordeirinho assado no forno, extremamente tenro e com um paladar como requerido. Finalmente, foi-se por uns milhos com costelinhas, que eu diria quase ao nível daqueles que a dona Fernanda nos serve na Ucanha, perto de Tarouca, e que tenho como referência do sabor ideal.

Diga-se que as carnes, no Carvalho, não se ficam por aqui. Já por lá provei o naco de vitela de grande qualidade, tenho saudades do seu arroz de fumeiro e, “last but not least”, a dona Ilda – chefe desta cozinha exemplar, que às vezes espreita às mesas para olhar as nossas caras regaladas – faz um arroz de frango de cabidela de se comer e chorar por mais.

Sobremesas? É uma lista grande, com as coisas óbvias e outras que o são menos. Escolhemos três “pecados” de doçaria: as migas do Carvalho (com chila, ovos’ amêndoa e vinho do Porto), o aveludado de laranja e as rabanadas – que aqui se fazem ao longo do ano e com uma leveza e textura muito raras.

Restam os vinhos. A lista de sugestões não é muito longa. Optei por um Carm tinto 2011, do Douro superior, um vinho intenso que sempre tenho como uma aposta segura.

O serviço do restaurante é impecável, de um profissionalismo quase sem falhas. Este é, sem a menor dúvida, um dos mais seguros valores da restauração transmontana. Regressarei ao Carvalho sempre que possa. Que posso dizer mais?

Restaurante Carvalho
Alameda do Tabulado
Tel. 276 321 727
Preço médio: 25 euros
Reserva recomendada
Fecha à 2a feira
Wifi





Opções na área


Em Chaves, a preços mais módicos, recomendo o simples Aprígio (276 321 053). Em Vidago, bastante mais caro mas de grande qualidade, é o Restaurante gourmet do Hotel Vidago Palace (276 990 920)

25.12.15

Natais


Contrariamente ao que se pensa, o problema não está no que se come entre o Natal e o Ano Novo. O problema, de facto, reside naquilo que se come entre o Ano Novo e o Natal.

Boas Festas!

27.9.15

Tomba Lobos (Portalegre)


Como transmontano, confesso que nunca me reconciliei com a leitura de “campo” de muitos dos meus amigos lisboetas, frequentemente reduzida às longas planuras do Alentejo. Para quem nasceu “para além do Marão”, campo é outra coisa: são as serras, as montanhas, as pedras escalavradas e as urzes bravas. Por tudo isso, como cenário possível de compromisso a Sul, o Alto Alentejo é a zona onde me sinto bem. Tem, da região alentejana, todos os paladares e maneira de estar, conserva os seus inigualáveis ritmos do tempo, mas surge já cruzado com a dureza do terreno que se abre às Beiras, terras que me são mais próximas.

Fui há dias ao Alto Alentejo à procura de um cultor sereno dos sabores da região, o José Júlio Vintém. Conheci-o há um bom par de anos, quando agarrou, com maestria, um espaço simpático no centro da cidade de Portalegre. Segui-o depois, ao longo do tempo: vi-o já ali, numa moradia de periferia da cidade, em cenário rural, onde combina uma sala mais tradicional com um local adequado ao freguês do petisco, que, o tempo ajudando, pode acabar a acomodar-se na tertúlia galhofeira numa esplanada dianteira. Soube da aventura no Brasil e, agora, deste saudável regresso às origens. Que se saúda!

Com o José Júlio, a minha regra é irrevogável: deixo-o ir trazendo da cozinha o que o estiver para sair. Vieram assim, para além do excelente pão local, uma salada de beldroegas, um queijo de cabra assado no forno com orégãos, tibornas de tomates com azeite e uns peixinhos da horta - uma entrada simples por cuja textura “al dente” eu costumo testar o dedo dos cozinheiros. Por ali, nunca se enganam. Ah! E umas bolas panadas de rabo de porco, que, à vista, até presumi de alheira. Fechei as entradas com uma saborosa perdiz de escabeche, em cama de espinafres.

Que teria eu perdido, entretanto? Olhei a lista e lá estavam “paletes” de petiscos, que ficam para uma próxima vista, de que lhes deixo uma pequena amostra: pétalas de toucinho de porco alentejano no forno, rabinhos de tomatada panados, coelho em molho de vilão, molejas de borrego salteadas e umas inusitadas favas com morangos e enchidos do norte alentejano. E muito mais.

Nesse cardápio, surgiam umas iniciais misteriosas: PA, CA, TA. Lá me esclareceram: “produto alentejano”, “confeção alentejana”, “tipicamente alentejana”. Ali não se brinca em serviço!

Deixei os petiscos de entrada, terreno onde, como se sabe, no Alentejo se pode fazer uma refeição completa. Segui depois por uma açorda gratinada de fraca, com poejo, quiçá avinagrada um pouco demais para o meu gosto. Fechei este capítulo com um excelente rabo de boi guisado, de carne certificada.

Regressei à consulta da carta, para mais uma dose de angústia sobre o que entretanto perdera. Ali estavam, por exemplo, as sardinhas albardadas com açorda de coentros, o peito de galo recheado com farinheira, os nacos de vitela ao alhinho, com azeite virgem. E, claro, as sopas, açordas e migas, mas também diversos pratos com viandas de porco, touro, pato ou javali, além de vários usos criativos de bacalhau.

A lista de sobremesas é curta, mas cuida em separar os doces conventuais (o torrão real, os fartes, o queijinho de ovo) das receitas regionais, onde estão a boleima de maçã e um pudim de queijo com pétalas de rosa, além de outros bolos e tartes com marca local.

A carta de vinhos também não é muito longa e, naturalmente, privilegia os alentejanos. Por recomendação da casa, fui para um “Terrenus”, tinto de 2011, ali mesmo da Serra de S. Mamede, não muito denso, com um final prolongado agradável na boca. E preço módico que ajudou a uma conta que foi “em conta”, mas que sempre variará com o apetite do cliente.

Que recomendo ao visitante que vá de longe? Desde logo, que antes inquira o que de especial lhe pode ser preparado, se não quer perder alguns dos pratos que aqui leu. Ou que arrisque o que houver, porque o risco é sempre escasso.

O “Tomba Lobos” renasceu neste subúrbio de Portalegre. Que tenha longa vida! 



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* É o farfalhudo bigode do Apolino, o colaborador de sala que segue o José Júlio desde a casa original, que primeiro nos recebe com o seu sorriso franco. Cúmplice discreto dos usos da casa, o Apolino é hoje um cicerone atento.


* O Tomba Lobos existiria sem a Catarina? Duvido. Ela é a força motriz ao lado do José Júlio, dona de uma ironia sofisticada, companheira firme e serena de todas as horas.


* “Em Portalegre, cidade do Alto Alentejo, cercada de serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros, morei numa casa velha, velha grande tosca e bela, à qual quis como se fora feita para eu morar nela”, in Toada de Portalegre, de José Régio


* A serra é a vida do José Júlio. As hortas onde cultiva, os pequenos produtores que acarinha, a caça que traz para a cozinha, os amigos com quem faz tertúlia. Conheceu muito mundo mas é naquela serra que decanta anos de mesas e vivências, numa cozinha que só é pretensiosa na qualidade.

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Tomba Lobos
Bairro da Pedra Basta, 16
Sé,
7300-529 Portalegre

Tel: 245 906 111
Estacionamento fácil
Wifi
Não fumadores
Encerra: domingo ao jantar e 2ª feira


25.9.15

"Retiro do Chefe Costa" (Lisboa, Alcântara)


Um Chefe que não pede de estrelas


Há muitos anos que sentia alguma curiosidade ao olhar aquele restaurante, situado do lado mais inestético do largo de Alcântara, no sopé do bairro do Alvito. O nome – “O Retiro do Chefe Costa” - era, em si mesmo, bizarro. Via-o quando tomava o caminho para a ponte sobre o Tejo. Amigos diziam-me ser muito recomendável, mas o aspeto exterior, confesso, não me entusiasmava, pelo que fui hesitando. Até há dias.
Como se chega lá? De carro, saindo de um semáforo junto à estação de Alcântara-Terra, atravessa-se em perpendicular a avenida de Ceuta. No final dessa travessia (mas só no final, caso contrário arrisca-se a ir parar a Almada!), corta-se à esquerda, prosseguindo depois pouco mais de uma centena de metros. Mas também se pode atravessar a pé, do lado da rua Prior do Crato, depois da passagem de nível.
O interior do “Retiro”, não tendo o menor luxo, supera francamente a sua imagem externa, num edifício que me disseram ter sido em tempos um cinema popular de Alcântara. É o típico restaurante popular de bairro de Lisboa, limpo, com pessoal amável, onde dá vontade de levar um grupo de amigos e ficar por ali à conversa, por horas.
A lista – como já me tinham dito – é impressionante de variedade. Os peixes têm um lugar predominante. Não optei pela emblemática Massada de garoupa à Hortense, de que todos me falam, preferindo desta vez um Caril de Camarão à Goa, que se apresentou magnífico de textura e sabor. Mas também figuravam na lista a Sopa rica de peixe à Fragateira, o Bacalhau na caçarola à Caldelas – denunciando a raiz minhota da casa -, o Arroz de polvo no tacho com gambas, os Lombinhos de garoupa à Berlengas e vários outros pratos de peixe, com uma oferta muito variada de mariscos.
Nas carnes, optou-se por um Cabrito do Norte assado à Cabeceiras, que ganharia em estar menos seco, embora muito agradável no sabor. A origem setentrional da casa voltou a notar-se nos Rojões de Porco no tacho à Bracarense, que luziam numa mesa ao lado. Uma Dobrada de feijão branco e o clássico Arroz de pato à Antiga compunham a oferta, onde figuravam ainda as várias declinações tradicionais das carnes, fosse de vitela ou de porco.
Numa parede anunciava-se que, por encomenda, era possível comer por ali Lebre, Coelho bravo e perdiz. Uma boa oportunidade.
A refeição fora aberta com umas belas chamuças, bolos de bacalhau e azeitonas, deixando de parte uma ovas que também prometiam.
Nas sobremesas, o menu não inventa e segue a regra nacional: arroz doce, pudim de ovos, leite creme, mousse de chocolate, semifrio, algumas tartes, etc. Provou-se apenas o arroz doce, que estava bom.
A carta de vinhos, manuscrita, é surpreendentemente variada, com a curiosidade de apresentar vários verdes, dos brancos minhotos ao tinto, incluindo o “vinhão” de Ponte de Lima. Nela predominam os Alentejos, se bem que os Douros e alguns Dão também por ali surjam, a preços muito razoáveis. Há vinho ao jarro e, claro, sangria.
A minha experiência nesta visita ao “Retiro” foi manifestamente curta, como o leitor terá verificado. Mas a prova provada de que foi positiva é que fiquei com uma forte vontade de lá voltar, muito em breve.
Acho importante apoiar a continuidade deste tipo de casas, onde uma cozinha genuína, sem arrebiques mas com uma qualidade sustentada no tempo, em doses generosas, servida por gente esforçada e muito agradável, nos oferece uma relação qualidade/preço que, neste caso, é do melhor que tenho visto por esta Lisboa.      

LISBOA (ALCÂNTARA)
“O Retiro do Chefe Costa”
Estrada do Alvito, 12,
1300 Lisboa
Tlf. 213 637 914   
Fecha à 2ª feira
Reserva recomendada
Preço médio/pessoa: 15/18 euros
Aceita Multibanco, Visa, Mastercard

28.8.15

"Ancoradouro" (Moledo, Caminha)


Preia-mar eterna no Moledo

Ao entrar na sala asseada (o termo é “saloio”, mas adequado), com a cozinha (agora um pouco menos) à vista, onde a dona Fátima dita as regras, senti falta do sorriso acolhedor de Manuel Galvão, um minhoto discreto e educado, que andou por França e que, desde há duas décadas, ali nos oferecia uma cozinha que só não era simples porque assegurar qualidade, em permanência, é, manifestamente, uma coisa muito complicada. Manuel Galvão partiu, há quase um ano. Lembrei-me que, há poucos meses, um cliente fiel da casa, José Mariano Gago, também nos abandonou.

A vida continua, contudo, no “Ancoradouro”, em Moledo do Minho, restaurante numa moradia na parte norte da vila, a dois passos da estrada que liga Caminha a Viana. Às mesas, como sempre, Alfredo, o filho, aponta-nos o que devemos comer e, mais importante do que isso, dissuade-nos quanto a certas opções, quando acha que elas não estão à altura daquilo que a casa se esmera em apresentar. “Não, hoje não vai comer isso!”, diz-me, às vezes, “autoritário”, reduzindo-me as opções numa lista que (felizmente!) já é bastante curta.

Aceite o leitor, à confiança, o peixe que o Alfredo lhe recomendar, que, nessa manhã, chegou da lota de Âncora. Mas se as viandas forem a sua escolha, vá então para a vitela certificada que, por ali, é tratada com maestria, de preferência servida mal passada, porque a grelha quer-se leve e o lume deve ser breve, quando o produto excela (existe o verbo?).

Antes, muito cuidado com o pão! É que ele chega, insidioso, em sacos de pano cru e, se não estamos atentos, a broa densa de centeio e os pãezinhos brancos, molhados no azeite virgem com orégãos, acompanhados das saborosas azeitonas não industriais e de um queijo curado que vem com nozes, acabam por preencher espaços vitais para acomodação do resto do repasto. E tudo fica ainda bem “pior” se associado às chouriças de porco bísaro ou à alheira grelhada de Mirandela. Mas perder isto seria imperdoável! E como “esta vida são dois dias”, olhe!, eu aproveitei a noite!

Se, ainda assim, com estoicismo espartano, tiver moderado a tentação das entradas, parta então para o centro do repasto. Já disse atrás o necessário sobre os peixes, tema em que a casa não brinca (o linguado estava soberbo!). Por aí também incluo o bacalhau (para duas pessoas), grelhado como mandam as regras. Todos os produtos, do mar e da terra, surgem acompanhados das batatas com casca, fritas em azeite virgem. Se, no dia, houver, peçam o feijão verde, que estavam com textura e paladar exatos, com cenoura a ladear. Nas carnes, a posta de vitela barrosã (cinco a nove meses, diz o cardápio), a costeleta da mesma origem ou o costeletão (animais com mais de nove meses) são sempre de grande qualidade. Há muitos anos que ando a “tentar” comer mal no “Ancoradouro”…

Nas sobremesas, o “prato forte” são os diversos crepes, uma tradição que o saudoso Manuel Galvão trouxe de França e que se espalham por várias opções de acompanhamento. O de maçã e Calvados é, há muito tempo, o meu preferido. Mas disseram-me que o bolo de chocolate estava excelente e vi por lá uma tarte de queijo com compota que ficou para a próxima!

Ah! Restam os vinhos. A lista tem vindo a melhorar, com uma razoável escolha de Douros tintos e, naturalmente, uma seleção de Verdes brancos da região. Optei por um tinto Quinta do Grifo, reserva, 2011 (grande ano!), um vinho justamente medalhado, com uma boa relação qualidade/preço.

No “Ancoradouro”, no Moledo, a maré do gosto está sempre em preia-mar…



MODELO DO MINHO
“Ancoradouro”
Rua João Baptista da Silva, 522
Moledo (Caminha)
Tlf. 258 722 477 , 937 228 947
Abertura todo o ano: 6ª jantar, sábados e domingos
Abertura no Verão: 3ª, 4ª e 5ª ao jantar
Reserva sempre recomendada
Preço médio/pessoa: 25/30 euros
Aceita Multibanco
Não fumadores
Wifi
Facebook: https://www.facebook.com/Ancoradouro

16.7.15

Casas do Bragal - Coimbra

 
E Coimbra foge ao seu fado
 
Por anos, Coimbra esteve fora dos meus roteiros da boa mesa. Antes da abertura do magnífico Arcadas, na Quinta das Lágrimas, comer por ali nunca foi uma aventura entusiasmante. Os tempos vão melhores, mas, no passado, a cidade mereceu a sua sina: muitos dos que por lá iam, sentiam o tropismo de avançar até à Mealhada, com o leitão na mira.
 
Há meses, surgiu-me uma nova sugestão na cidade: o Casas do Bragal. Lá chegar, sem GPS, pode ser um bico de obra. A melhor opção é seguir a indicação do novo Estádio e, a partir daí, subir para norte, para o bairro da Solum, uma zona de moradias.
 
Para restaurante, trata-se de um espaço bem atípico. Entra-se na casa para uma zona envidraçada, com vista sobre a cidade e recheada de sofás, livros e jornais. Somos convidados a aí nos instalarmos, para uma bebida e consulta do menu. A sala de jantar, com algumas dezenas de lugares, rodeada de quadros a óleo, fica ali mesmo ao lado, separada por um murete.
 
O viajante com horas contadas terá um choque. Ali tudo se passa sem pressas, porque, como logo se entende, não se vive o afogueamento de querer ter muitos clientes por refeição. Há que contar com que as coisas se passem ao ritmo da casa.
 
Eugénio Martins, que nos recebe e orienta, explica-nos uma limitação que é, desde logo, uma imensa garantia: do texto do menu podem estar excluídos alguns pratos, porque ali trabalha-se com os produtos do dia, tudo é feito na hora e, por vezes, há coisas que não é possível apresentar. O menu é uma «bússola» orientadora, mas dele podem não constar propostas de ocasião que seria uma imprudência vir a perder.
 
Não se preocupe com as entradas. Elas chegarão, à medida do que a imaginação do dia proporcionar, numa cadência certa. Anotei os cogumelos recheados com bacon e peixe, uns clássicos, mas «trabalhados», rojões à moda do Minho, um carpaccio de vitela, umas azeitonas (bem) marinadas, uma salada de peixe e queijo fresco. Mas também se pode optar por uma mão de vaca com grão, uma açorda de espargos ou uma salada de beterraba.
 
Importante será olhar com atenção a cuidada lista de vinhos. Douro e Alentejo estão muito bem representados, com preços razoáveis. Pedi uma sugestão da casa e não me arrependi: um tinto beirão, Quinta dos Termos 2009, monocasta da zona de Belmonte, encorpado e suave, mesmo para a carteira.
 
Como pratos principais, a cozinha – onde prepondera Manuela Cerca, uma professora de História que andou pelo jornalismo e se converteu à gastronomia – oferecia nesse dia coisas bem interessantes. Experimentaram-se as vieiras com emulsão de azeite e arroz malandro de agriões, bem como uma cataplana de amêijoas com tamboril. Nas carnes, o pato confitado com trompetas dos mortos foi alternativa ao arroz «pica no chão». Terei um dia que provar os ovos mexidos com trufa branca de alba, bem como o risotto de lactarius delicious com nacos de vitela.
 
As sobremesas não se pedem; procuram-se, na respetiva mesa. Anotei, sem preocupação exaustiva, as mousses (chocolate, café e limão), uma divinal tarte de maracujá, caramelo e amendoins, o pudim da Avó Felicidade e as farófias. Mas também há, noutros dias, terrina de chocolate, tarte e sopa de amoras, entre várias outras coisas. Uma boa coleção de Portos e Madeiras serve de acompanhamento a esta última fase.
 
O preço, variando com as ambições do cliente, foi francamente razoável.
 
A menos que o leitão seja um imperativo, fica aqui um forte conselho para uma visita – calma, sem pressas – a este excelente Casas do Bragal.
Casas do Bragal
Rua Damião de Góis
Urbanização de Tamonte
3030-088 Coimbra
Tel. 918103988
Encerra: 2ª feira e almoço de 3ª feira
Estacionamento, WiFi, espaço para fumadores
Notas
• O «tout Coimbra», com gentes da Universidade a predominar, já se habituou a chamar seu ao lugar. Vê-se na intimidade dos grupos, na familiaridade das conversas. Há, porém, um esforço, evidente e empenhado, para integrar o novo cliente no ambiente.
Bebo champanhe quando estou contente, quando estou triste e, às vezes, quando estou sozinha. Brinco com ele quando não tenho fome e bebo-o quando tenho. Quando tenho companhia, considero-o obrigatório. Fora isso nunca lhe toco; excepto quando tenho sede. Madame Lily Bollinger (citação na lista de vinhos)

• Um menu de azeites não é ainda uma coisa vulgar nos restaurantes portugueses. É, contudo, um caminho interessante para revelar que também por aí passa muito do sucesso dos novos cultores da cozinha tradicional portuguesa

• Às vezes, também se canta por ali o fado e se ouvem outras sonoridades que rimam com o ambiente descontraído da casa.

30.5.15

"Toca da Raposa" (Ervedosa do Douro)

Na minha juventude, o nome "Toca da Raposa" ligava-se àquele que foi o primeiro restaurante citadino de Vila Real, criado nos anos 60. Até essa altura, a restauração vila-realense (tal como acontecia na grande maioria das cidades e vilas portuguesas) limitava-se às tascas, às "casas de pasto" e às pensões, onde aboletavam funcionários e gente de passagem. A velha "Toca da Raposa" é hoje um estimável café, aliás com graça nas noites de verão.

Por essa razão, quando me disseram que havia um restaurante com esse nome em Ervedosa do Douro fiquei curioso. 

Imagino que a maioria dos leitores se interrogue: mas onde fica Ervedosa do Douro? Três coisas são certas. A primeira é que, para a esmagadora maioria dos portugueses, não fica “logo ali”. A segunda é que a viagem “vale o desvio”, como costumam dizer os guias Michelin. E, finalmente, a terceira coisa que posso assegurar é que, lá chegados, ao restaurante que aqui lhes recomendo, não irão ficar desiludidos.

Dito isto, dou umas dicas orientadoras. Se vier da Régua, na direção do Pinhão, são 35 km pela agora famosa EN222, há semanas considerada internacionalmente “a melhor estrada do mundo”. Porém, no caso de Vila Real ser o ponto de partida ou passagem, aconselho vivamente tomarem o caminho de Sabrosa, daí descendo com calma até ao Pinhão (não percam os azulejos da estação da CP!), antes da subida final para Ervedosa do Douro.

Em qualquer dos casos, o espetáculo é fascinante. Para além da serena imponência do Douro, a paisagem é envolvida pelas cores mutantes dos “montes pintados”, de que falava João de Araújo Correia. António Barreto sintetizou isso bem: “Entre as aldeias, vinha, vinha e mais vinha. Verde, vermelha, roxa, amarela, castanha e negra, conforme as estações”.

Finalmente, com outro perfil de cenário, mais beirão, há ainda um caminho pelo sul, por Trancoso e por S. João da Pesqueira, que já fica a dois passos de Ervedosa.

Mas vamos ao que interessa, à Toca da Raposa, de que hoje lhes quero falar. De início, foram uns rumores: “há um lugar que creio que não conheces, perto de S. João da Pesqueira, onde se come muito bem”. Depois, outros, mais desafiadores, provocaram: “Andas por aí a escrever sobre restaurantes e nunca li uma palavra tua sobre a Toca da Raposa!”. Comecei a irritar-me e, conduzido por um amigo, para me livrar do “bafómetro” (como dizem os brasileiros) da Brigada de Trânsito, rumei um dia deste até Ervedosa do Douro.

Fomos recebidos pela Maria do Rosário, que orienta a sala com simpatia e saber e nos indica aquilo que a mãe, a D. Maria da Graça, nos pode preparar a partir da (imaculada) cozinha. A completar, o irmão, engº Fernando Gomes, trata dessa dimensão duriense essencial que são os vinhos. É, aliás, o responsável pela magnífica carta que o restaurante apresenta, onde, como é óbvio, os Douros são donos e senhores do espaço. Agora, ao lado do próprio restaurante, há mesmo uma garrafeira, com mais de 100 hipóteses de escolha, colmatando uma estranha lacuna na região.

A conselho avisado de quem me acompanhava, decidi ficar nas mãos e no conselho da casa, para uma degustação.

Abrimos o repasto com uma alheira. Era de caça, senti-a pouco vulgar e tinha razão: tinha perdiz, faisão e coelho bravo. Disseram-me que havia outra: de vitela, porco e galinha. Acompanhámo-la com um branco Odisseia 2013, com castas rabigato, viosinho e côdega de Larinho.

Uma torrada de pão regional, uma receita em que antigamente se usava o pão velho que sobrava, com azeite e alho, serviu de base a um belo queijo de cabra com azeite. Um branco Quinta do Cidrô, Semillon, 2013 esteve junto.

Ainda nesta fase introdutória, experimentámos uma chouriça “crespa” de vinho do Porto, e depois, o “moiro”, uma alheira transformada com sangue de porco. Aqui, já nos acompanhou um Quinta Beira Douro, 2012, tinto.

Outro tinto, este o Quinta de S. José, desse excelente ano de 2011, deu suporte a um polvo grelhado, com batatinhas tostadas, salada de pimentos com alho e cebola.

Continuando agora nas carnes, seguimos para um cozido, com arroz branco, que anotei muito mais leve do que outros que tenho experimentado por aí. Na harmonização, foi-nos sugerido um tinto Quinta do Malhô 2011, um pouco frutado e com uma ligeira e agradável acidez.

Finalmente, o cabrito grelhado, com que se encerrou esta fase, teve a acompanhá-lo um tinto Reserva d’Amizade, 2011, um vinho mais encorpado, com touriga nacional, touriga franca e tinta roriz.

Encerrámos com um painel de sobremesas: primeiro o magnífico Bolo Borrachão, seguido de uma tarte de amêndoa e chila. Um Porto Dalva 85 serviu de acompanhamento. Finalmente, provámos o Arroz Doce e um Pudim de Ovos, desta vez com um Porto Tawny 10 anos, Quinta das Carvalhas.    

A lista, extremamente cuidada e com uma apresentação muito profissional, para além das experiências feitas, oferece outras propostas muito interessantes. Nos peixes, a casa tem como referências o polvo na telha e os milhos de bacalhau. Nas carnes, a somar a um belo leque de enchidos, dizem-me ser notável o arroz de feijão com salpicão, a meada de cabrito (um prato antigo da região), que é um estufado envolvido em massa meada, e o porco bísaro com arroz de míscaros.


O Douro corre lá em baixo, mas há um Douro bem alto nesta Toca da Raposa, em Ervedosa. Aconselho vivamente.

TOCA DA RAPOSA
Rua da Praça, Ervedosa do Douro (São João da Pesqueira)
Tlfs: 254 423 466 / 961 586 199
Preço médio (com vinhos): 30 euros
Aberto todos os dias, das 12.00 às 16.30 e das 18.30 às 00.00 horas.
Web: facebook.com/tocadaraposa.douro

Outras opções na região: Na Folgosa, o DOC (254 858 123) e, no Pinhão, o Harvest (Hotel LBV, 254 738 320), alternativas mais caras. Em S. João da Pesqueira, O Forno da Devesa (254 484 414) 

9.5.15

Imperial de Campo de Ourique


Olhando de fora, nem sequer é muito óbvio de que se trata de um restaurante. Entra-se e, à direita, tem um daqueles balcões longos e altos que são a imagem de marca de estabelecimentos similares. Por detrás dele está a cozinha. Dessa sala de entrada, onde também se pode abancar (foi ali que o fizémos, aliás) passa-se a outra, nas traseiras, onde a amesendação da "Imperial de Campo de Ourique" tem o seu lugar nobre. Mas tudo é muito simples: mesas e cadeiras metálicas, individuais e guardanapos de papel.

O senhor João, minhoto de Ponte da Barca, recebe-nos com a generosa qualidade de quem é do norte: caloroso, envolvente, agradado por poder agradar, preocupado por não poder acolher-nos na sala principal. Eu e quem me acompanhava não íamos muito preocupados com o poiso. Íamos diretos à chanfana que, na 6ª feira, é o prato de resistência, a imagem de marca da casa, a par, noutros dias e em tempos adequados, da lampreia, que o senhor João arranja "lá em cima", de qualidade e que, consta, é muito recomendável. 

A lista, nesse dia, não se esgotava, porém, na chanfana "à casa". Por ali havia uma feijoada à transmontana que espero em breve testar e um bacalhau assado com batata a murro que me levou os olhos, numa travessa que passou. E outras coisas, como dourada ou carapaus grelhados, o bacalhau à Brás, as clássicas iscas de porco e outros grelhados usuais na restauração lisboeta. Noutros dias há coisas diferentes, como salmão, pataniscas e outros pratos Ah! e, claro, a dose, em nenhum caso, excede os 10 euros, pelo que, nem com esforço!, a fatura final passará além dos 15 euros.

Começou-se com uns bolos de bacalhau, com textura certa. O vinho escolhido foi o da casa, de "um primo da Ermelinda de Freitas", segundo o senhor João nos informou. Era amplamente "buvable", como se viu na repetição das canecas a que as três horas de conversa obrigaram. Não experimentei a aguardente de terras da Barca que o senhor João trouxe para a mesa (limitação de quem tinha de dar uma aula nessa tarde!), mas não resisti ao arroz doce (um pouco líquido de mais para o meu gosto) com que se fechou o repasto. Também o apetecível bolo de bolacha e o pudim (muito gabado por quem o provou) ficaram para outras visitas. 

Há dias, publiquei por aqui um despretensioso "guia" da oferta gastronómica em Campo de Ourique. Hoje, de baraço ao pescoço, qual Egas Moniz, devo reconhecer o erro de não ter incluído esta "Imperial de Campo de Ourique" (que me trouxe à memória a sua saudosa homónima do Campo Pequeno, cujo encerramento nunca lamentarei suficientemente). A retificação devida vai ser feita.

"Imperial de Campo de Ourique"
Rua Correia Teles, 67
Tlf. 21 388 60 96
Fechado aos domingos. 
Nem sempre abre ao jantar, o que, no entanto, faz sempre que haja reservas atempadas      

4.5.15

Bairro Alto

 
Ontem, domingo, deu-me para ir jantar ao Bairro Alto. A (re)viver em Lisboa desde há mais de dois anos, dei-me conta que o Bairro Alto deixou de ser o local onde, no passado, ia muito frequentemente, a restaurantes e alguns bares. Entrei no bairro ido do Camões e, de repente, "perdi-me"! Eu já não conheço "aquele" Bairro Alto! Andei por ali uma boa meia hora, cheio de curiosidade. Passei por dezenas de restaurantes, tascas e bares cuja existência e nome desconhecia por completo, só de quando em vez ouvi alguém falar português e, mesmo nesse caso, era quase sempre com acento brasileiro. Verdade seja que não me senti minimamente tentado a entrar em nenhum daqueles espaços, que têm o mesmo atrativo para um nativo do que a rua das Portas de Santo Antão (com exceção do Gambrinus e do Solar dos Presuntos) ou a rua Jardim do Regedor. Mas fiquei imensamente satisfeito por ver o bairro cheio de gente, com os restaurantes "à cunha", numa noite quase-chuvosa de domingo, com um ambiente cosmopolita, que nada fica a dever a outras áreas similares por esse mundo fora. O movimento nesta zona de Lisboa, que se prolonga por Santa Catarina, pela Bica e chega ao Cais do Sodré, tem hoje um turismo pujante. E ainda bem! Espreitei o Alfaia, mas já nem tinha os "lombinhos à indiana" na lista afixada na porta. Confirmei que a Tasca do Manel e o vizinho Fidalgo estavam fechados, o mesmo era verdade para o Pap'Açorda e o Casanostra. Idem para a Primavera e o 1° de maio. Não testei o novo registo do BarAlto e o Bota Alta estava de folga. Não me aventurei pela zona longínqua do Cem Maneiras ou para os lados do Farta Brutos. Aqui entre nós, este Bairro Alto, em toda a sua glória turística, é hoje uma ilha estrangeira em Lisboa. E se acho isso bem simpático, vi-me a concluir que o bairro deixou (em definitivo?) de me atrair (dizem-me que há umas lojas giras durante o dia). No fim desta breve incursão, gastronomicamente frustada, decidi ir jantar a outro lado. Ali perto, o SeaMe estava a abarrotar, a Taberna da Rua das Flores nem luz tinha, pelo que acabei na Brasserie de l'Entrecôte, por grande sorte de uma marcação de alguém que faltou à última da hora. Como dizia o Camilo de Oliveira: "isto é que vai uma crise!"

26.4.15

Os outros constituintes


No dia em que, em Portugal, se comemoraram 40 anos sobre a eleição da Assembleia Constituinte, foi criada em Lisboa a Academia de Gastronomia da União Europeia.

Na foto, da esquerda para a direita, Maciej Dobrzyniecki, presidente da Academia de Gastronomia da Polónia, Rafael Ansón, presidente da Real Academia de Gastronomia Española, em representação da Academia Internacional de Gastronomia, José Bento dos Santos, presidente da Academia Portuguesa de Gastronomia, e Carlos Fontão de Carvalho e o titular deste blogue, diretores desta última Academia.