22.4.18

Algum Minho à mesa



Um fim de semana no Minho deu para algumas incursões gastronómicas. Aqui ficam telegráficas notas das visitas, para quem estiver interessado:

CENTURIUM (Braga)

É um edifício antigo, bem modernizado, na Avenida Central de Braga. Uma lista “a puxar” para o caro, com alguma ambição. Uma experiência que, contudo, ficou um pouco aquém da expetativa. Nota para um serviço muito atento e profissional.

EL OLIVO (Braga)

No Hotel Melià, em Braga, há um excelente restaurante! Já me tinham dito e confirmei. Carta com alguma diversidade, com hipóteses de “defesa” em matéria de preços. Vou voltar.

RETIRO DA CABREIRA (Vieira do Minho)

Não tivemos sorte com a ocasião. A sala estava deserta, nesta moradia a escassos quilómetros de Vieira do Minho. Lista inteligentemente curta, mas com o essencial. Cometemos um erro: pedir cabrito à noite, quando é sabido que ele se prepara de manhã. Mas vamos voltar um dia, porque a casa promete, as entradas eram ótimas e a carta de vinhos simpática.

O ABOCANHADO (Campo do Gerês)

Andava há anos para visitar este belíssimo espaço em Bufre, no meio do Gerês, com bela vista sobre a barragem de Vilarinho das Furnas. Para se lá chegar é preciso andar um pouco, bem adiante de São Bento da Porta Aberta. Foi um almoço simpático embora não deslumbrante. A lista é muito bem construída, os vinhos são bons (embora um tanto carotes), o serviço agradável. 

VICTOR (São João de Rei, Póvoa de Lanhoso)

Comer outra coisa que não seja o bacalhau seria sempre um sacrilégio no Victor. Com a atenção costumeira do patrão, provámos um “fiel” pescado, demolhado no ponto, de boa qualidade. Antes, provei aqueles que considero terem sido os melhores bolos/pastéis de bacalhau que comi em toda a minha vida (e sou um “habitué” do produto). O senhor Victor tem a tese de que, sendo os ovos do seu quintal, isso faz toda a diferença. É capaz de ter razão. O que importa é que se comeu muito bem, como sempre me aconteceu por ali, há muitos e muitos anos.

POUSADA DA CANIÇADA (Caniçada, Gerês)

Há muito que se deixou de comer barato nas pousadas mas, em compensação, raramente tenho tido más experiências, nos últimos anos, em qualquer daquelas que visitei. Foi agora o caso da Caniçada, onde pernoitei por uns dias (isto diz-se?). Pratos bem apresentados, saborosos, com produtos de qualidade, revelando que quem está na cozinha tem “métier”. O serviço foi muito profissional, não deixando de ser acolhedor e simpático.

CANEIRO (Arco de Baúlhe)

Era um endereço que trazia em agenda, há anos. O Arco do Baúlhe, a dois passos da A11, não fica muito “à mão de semear”, mas fiz um esforço para lá passar. O restaurante está modernizado, “confortabilizado” sem arrebiques excessivos, com um serviço muito atento e um ritmo bem oleado. Comemos lindamente, com um preço muito aceitável, vinhos “em conta”. Vou contar aos amigos e voltar quando puder.

18.2.18

Lisboa - 70 mesas que perdi


Nos dias de hoje, há ótimos restaurantes em Lisboa. Melhor: nunca Lisboa esteve servida por tanta oferta, tão diversa e de qualidade, em matéria restaurativa. Sinto mesmo a tentação de dizer que não “alimento” a mais leve dúvida sobre isso...

Todas as nostalgias valem apenas o que valem, até porque, no passado, muito provavelmente, o nosso grau de exigência era menor e o paladar menos apurado. Isso não evita que tenha saudades de alguns restaurantes lisboetas que já desapareceram, onde passei muito boas horas - a comer, a conversar, a beber, enfim, a viver. 

Aproveitando uma nota deixada, há dias, no Facebook, por Luís Pinheiro de Almeida, alguém que se dedica a esse impecável serviço público que é descobrir sítios de “bem comer” a preços razoáveis, vou fazer aqui um bosquejo rápido por mais de meia centena dessas boas mesas perdidas (deixo as más ou “esquecíveis” para outros voluntários), de muito diferente natureza, de uma Lisboa que se foi. Deixarei de lado, em princípio, restaurantes que ainda mantêm o mesmo nome, mudando embora o registo da oferta.

Comecemos, geograficamente, pelo Parque Mayer, onde, mais do que o tipicismo do “Chico Carreira”, ficou a boa memória do “Manel”.

Desçamos à Baixa, recordando o bem antigo e excelente “Oriental”, na rua da Conceição, onde os quadros médios-altos dos ministérios e dos escritórios desaguavam à hora do almoço. Depois, o “Paris”, com os criados de branco, onde as famílias amesendavam nos fins-de-semana. E, para terminar no magnífico “Muni”, nos Correeiros, onde o meu amigo Vidal e senhora nos davam uma comida com memória galega, com umas sardinhas de escabeche históricas. 

Numa saltada ao Cais do Sodré, nos Remolares, fica para sempre a memória do “Porto de Abrigo”, onde pontificavam, entre outras especialidades, as vieiras gratinadas e os vários patos. E não se comia nada mal na “Adega dos Macacos”, uns metros adiante, na praça dom Luis. 

Subamos o Alecrim, notemos por ali o fim da curiosíssima “Cervejaria Alemã” e da bela versão aumentada da “Charcuteria”, que o amigo Martins trouxe de Campo de Ourique. No Chiado, fiquemo-nos apenas pela solenidade dos dourados do “Aviz”, esse palco regular de jantaradas políticas.

Um pouco mais acima, nas escadinhas do Duque, que bem que se comia na “Casa Transmontana”! E atravessemos para o Bairro Alto, onde só sinto saudades do “Primavera do Jerónimo”, com os imperdíveis filetes de pescada e, claro, do eterno “Pap’Açorda”. Com tanta coisa boa e um ambiente inédito nessa Lisboa dos anos 80, o restaurante foi um belo “pontapé-no-charco” de um bairro que começava a sair da banalidade e entrar na moda. Agora, mudou-se para o mercado da Ribeira. Mas já não é a mesma coisa aquela “espera social” (e logo eu, que não sou nada de esperas!) no balcão, até que o Fernando ou o José Miranda nos arranjassem uma boa mesa. No Bairro Alto, alguns nomes de antigos restaurantes foram conservados, mas o “conteúdo” mudou bastante em alguns deles - em poucos casos para melhor.

O “Pedro Quinto” (que substituiu o “João Sebastião Bar”), do meu amigo Juvenal, fez as honras à artéria vizinha com o nome, com uma lista curta mas interessante. Nesse tempo, tinha já por ali desaparecido a “Charcuteria Francesa”, de muito boa memória, que depois deu a designação a uma outra casa simpática, junto à igreja de S. Mamede, que a voragem dos trespasses levou também. Um pouco mais abaixo, na esquina com o Salitre, deixou saudades moderadas o “Pedro e o Lobo

Umas centenas de metros adiante, no Príncipe Real, ficava, até à pouco, uma das glórias antigas da cidade, o simpático “Faz Frio”, agora entaipado à espera de um qualquer espaço da moda. E próximo, o “Quanto mais gente melhor”, onde cabia mais gente do que parecia. No mesmo quarteirão, há uma casa que vai mudando de nome, mas a que eu achava graça quando se chamou “Romanov”, designação que honrava a memória dos czares, o que uma noite estimulou a visita ruidosa dos nostálgicos da Revolução de Outubro. Mesmo em frente, junto ao chafariz, do lado do “Snob” havia uma minúscula mas bela tasca nos anos 90, que também andou na moda, e cujo chefe vim depois encontrar em Alfama.

Continuando a caminho do Rato, a “Rota das Sedas”, que tinha dias, foi o meu pouso semanal numa tertúlia que agora mudou de ares. Por ali ficava a estimável “Esplanada do Rato”, onde se comia “tant bien que mal”.

A geografia leva-nos agora abaixo, à praça das Flores, onde o “Conventual” fez época, com a sua notável mesa de doces. Muito e bem por lá comi! Ainda um pouco mais abaixo, por São Bento e Madragoa, houve algumas casas que mudaram de nome. O “Constituinte” e o “Bolixa” foram poisos que me ficaram na memória, mas nenhuma saudade imensa me deixaram. Ou melhor, talvez apenas a antiga “Travessa”, “as belgas”, com um ambiente excelente, que depois se subdividiu na nova “Travessa do Convento das Bernardas”, onde ainda está a Vivianne, e no “Guarda-Mor”, onde já não está a Sofia.

Duas notas para casas desaparecidas, ali perto. Um pequeno restaurante de duas irmãs nos Poiais de São Bento, os “Bichos”, onde ia com um amigo deputado. Perto, no fundo do Poço dos Negros, houve um simpático restaurante com comida marroquina, chamado “Mercatudo”.

Bem mais adiante, em Alcântara, isso sim!, uma grande nostalgia: o “Painel de Alcântara”, do magnífico Cardoso, um amigo que mudou de mundos. E também havia ali o “Cuidado com o Degrau” (que tinha um perigoso degrau à entrada!), onde se chegou a comer bem, num espaço com alguma graça. E, ali bem perto, fechou há semanas o memorável “Retiro do Chefe Costa”, uma casa de que eu gostava bastante.

Três notas de proximidade. Na Gare Marítima de Alcântara houve um belo restaurante, cujo nome me escapa, com influência indiana: tinha uma bebinca como poucas que comi. Em Belém, faz falta o belo “São Jerónimo”, onde se comia muito bem, num ambiente elegante. E, passando “por cima” da linha férrea, uma nota de nostalgia para o fim do “Espelho de Água”, na sua mais clássica forma. Um quilómetro adiante, em Algés, foi pena ter desaparecido o velho “Petit Restaurant”.

Regressando a Leste, e subindo a Campo de Ourique, faz-me bastante falta a “Tasquinha da Adelaide”, com a saudável alegria da dona. Eram 29 lugares sentados que várias vezes “fechei” para amigos, com uma cozinha onde a simplicidade era o segredo. Há restaurantes que não entendo por que fecham, e a “Tasquinha” é um deles! (Há outros que não entendo por que abrem e ainda outros que não sei por que diabo se mantêm). Uma nota também, ali perto, para o “Caldeiro”, na Silva Carvalho, também um pequeno espaço de comida séria e lugar de bela conversa. Até o “Bem disposto” se foi e, com ele, dos melhores pasteis de massa tenra da capital. Mas, tirando dois indianos que dali desapareceram (mas ainda existe um, junto ao mercado, que pouca gente conhece), Campo de Ourique continua hoje muito bem e recomenda-se francamente à mesa.

Nas Amoreiras, ao lado do Procópio, deixou boa memória o “Mãe d’Água”, onde Angel Candeira, depois do “Angelus” do fondue a caminho de Sesimbra e do excelente “Porta Branca”, encerrou a sua carreira. A dois passos, foi uma grande pena ter desaparecido, na Artilharia Um, o excelente “Mezzaluna“. Menos memória deixaram os grelhados do "Chester”, a dois passos.

Um pouco mais acima, na Padre António Vieira, tenho boa recordação do “Ivo’s”, a primeira hamburgueria de Lisboa. Na mesma rua, ao que me recordo, houve a primeira pizzaria da capital, mas não me deixou nenhuma memória afetiva, pelo que não deve ter sido coisa notável. 

Passando ao vizinho Campolide, nunca tendo sido um marco gastronómico, o “Olho do Cuco” era um paraíso para os tête-à-tête, que só se mantinham discretos porque se empatavam no embaraço...

Na praça de Espanha, claro que se sente a falta da “Gôndola”, com as empregadas de avental, a lembrar a “Quinta”, no alto do elevador de Santa Justa, que também se foi. E, no que me toca, ali perto, o fecho recente do “Castro Elias” deixa-me alguma mágoa. 

Seguindo pelas Avenidas Novas, além das sardinhas da Feira Popular, tenho pena de se ter perdido o “Toni dos Bifes” e, não muito longe, o excelente “Telheiro”. Mas a mágoa do fim do restaurante do “Montecarlo”, essa sim! é inapagável. Aqueles bifes, as notas indianas e aquele inigualável pão pequeno ficaram-me na memória gustativa. Para o fim da noite, o “Monumental” também dava muito jeito. Boas recordações, mais recentes, deixou também o “Cinco do Dez”, na 5 de outubro, tal como o “Funil” de outros tempos, uma casa onde as famílias assentavam nos fins-de-semana.

Passando para outras Avenidas então novas, outra nota para a “Isaura”, uma cave na Avenida de Paris, onde se comia bem e se bebia melhor, com a garrafeira à nossa volta. Perto, havia também o “Cunha” e o “Paris”, onde, ao contrário da “Isaura”, se subia para a sala. 

No Campo Grande, quem se lembra do “Antigo Retiro do Quebra Bilhas”, com o seu belo espaço exterior? Nunca se comeu excecionalmente, mas o ambiente de tasca “fora de portas” era magnífico.

Muito perto, no Areeiro, houve uma bela cervejaria, a “Munique”. Uma nota, muito sentida, para a minha “cantina”, por anos, a “Imperial do Campo Pequeno”, na Sacadura Cabral, avenida ao fundo da qual havia também uma bela tasca, desaparecida ainda nos anos 70, o “Chico”, com bom peixe e os tradicionais tabiques de madeira. 

Notas finais. 

Nos restaurantes “topo de gama” que fazem falta noto o “Nobre” da Ajuda (hoje há outro por lá, muito diferente e noutro lugar), o “Clara” no Campo de Santana, o “Clube dos Empresários”, numa bela casa hoje em ruínas na avenida da República, o velho “Coelho da Rocha” (da escola do “Gambrinus”) e, um “degrau” abaixo na escala, o “Saddle Room”, em frente ao liceu Camões. Não longe deste, do outro lado da Fontes Pereira de Melo, comia-se muito bem no “António”. Não ficava muito perto, mas, na Antonio Augusto António de Aguiar, era muito simpático o “Petite Folie”.

E alguns outros restaurantes agradáveis, mas cujos nomes já se me varreram? Um belga, numa transversal à Alameda Afonso Henriques. Um açoreano nas traseiras do CDS, ao Caldas. Um pequeno à esquerda de quem subia a Cecílio de Sousa. Um minhoto do lado esquerdo de quem subia a Calçada de Carriche. Uma bela casa, creio que num páteo, em Sete Rios.

Finalmente, um local onde acabei muitas noites e vi começar alguns dias, o restaurante da Rotunda da Encarnação, nas bombas de gasolina, entre o Aeroporto e os Olivais, onde vivi por alguns anos.

Acabo como comecei: nos dias de hoje, Lisboa tem uma oferta gastronómica de muito maior qualidade e variedade. Mas deixar algumas notas sobre aquilo que nos sustentou, com gosto, a vida passada é um ato de justificada gratidão.

4.2.18

Alta “gastronomia”


Redescobri a delícia do pão com manteiga! Desde há anos que tinha passado a olhar com uma sobranceria crítica quem esparramava, com uma faca, aquela coisa amarela no pão, quando havia tantas outras coisas, das compotas a pastas, para lhe dar um sabor forte. Achava o pão-com-manteiga um primarismo, uma coisa de infância tardia, uma falta de imaginação.

Ainda por cima agora, quando os pães de qualidade começam a renascer por Lisboa (não, não é a “Padaria Portuguesa”, que é banal), desde Alcântara (na Prior do Crato) a S. Bento (na rua Nova da Piedade), passando pelas Avenidas Novas (esquina da Defensores de Chaves com a Miguel Bombarda). 

Mas. um dia, fui levado a provar uma manteiga açoreana (com sal, claro!), de seu nome Milhafre. Que maravilha! Não quero outra coisa! Grandes pãozadas, barradas generosamente, me têm servido de regalo, com os últimos pacotes dos “blend” de chá que trouxe do “Fortnum & Mason” (tenho de ir a Londres buscar mais).

Viva o pão-com-manteiga! 

3.2.18

Três (ou bastantes mais!) notas em Lisboa


Fui (finalmente) ao badalado JNcQUOI. Almocei no restaurante do piso nobre, naquele espaço ao lado do Teatro Tivoli, excelentemente decorado e com bom ambiente (muito turístico-abastado). Também visitei o belo balcão no andar inferior, com bons vinhos à venda. Mas voltemos ao andar de cima: a relação alimentação/serviço/preço esteve muito longe de me satisfazer. Pratos muito caros e um serviço “casual arrogant” (a nossa mesa foi brindada com um “hispano parlante” sem o mínimo de “métier” e com escassa cortesia). Mas, atenção, nada de negativo a dizer quanto à comida, antes pelo contrário. Também por aquele preço, era só o que faltava que não estivesse boa! Mas já há muito tempo que não esperava tanto tempo por um café no fim da refeição, coisa inadmissível num espaço daqueles. Pronto, ficou feito o “vezinho” e, como diz um amigo meu, fui lá três vezes: a primeira, a única e a última...


Já não ia ao Ibo, o moçambicano do Cais do Sodré há uns tempos. Sem ser deslumbrante, o espaço é simpático e, em especial, agradou-me sempre muito a esplanada exterior (agora impossível de usar à noite). O serviço é agradável e atento. O preço é um pouco desmesurado: sempre foi caro e está mais. A comida esteve assim-assim, confesso. Tinha uma ideia bem melhor da cozinha do Ibo. Embora com boa apresentação, a oferta pareceu-me um pouco “cansada”, talvez fruto de uma lista demasiado longa e do restaurante já não ter de lutar por clientela. A carta de vinhos está especulativa de mais. E, claro, não gostei que não houvesse precisamente o prato que eu queria e e o vinho que me apetecia. Não volto tão cedo.


Jantar no Gambrinus. Esta é uma Lisboa constante, cara (claro!), com um serviço impecável, rigoroso, profissional. O Gambrinus é o restaurante mais previsível que conheço. Não há surpresas, não há deceções, tudo está no ponto. É uma “senhora” por quem não passa o tempo. Perguntei por um vinho que estava na lista e que não conhecia: foi-me dada uma explicação que correspondeu, ponto por ponto, àquilo que viria a beber. E estava à temperatura certa, o que começa a ser raro por aí. E o Gambrinus tem “voiturier” ("manobrista" no Brasil), o que é comodíssimo. Ah! e café de balão, preparado ali à nossa frente, tal como são os crepes, com o fogo à vista. Grande Gambrinus! Se tivesse muito dinheiro, ia lá mais vezes.

Dos vinhos

”Cada vez se produzem mais vinhos interessantes em Portugal, embora também seja verdade dizer que nunca se produziram tantos vinhos desinteressantes: corretos e bem feitos, mas sensaborões, previsíveis, iguaizinhos e monótonos”.

Andava a pensar isto há muito tempo. Li agora, escrito por Miguel Esteves Cardoso. Aqui fica.

26.1.18

Quinta do Outeiro (Amarante)


Na terra de Amadeo e Pascoaes

Amarante é um dos segredos mais bem guardados do país. O Tâmega atravessa a cidade sob um panorama deslumbrante, através de um centro histórico belíssimo, onde o museu de Amadeo de Souza Cardoso e a adjacente igreja de São Gonçalo são marcos a não perder. Igualmente notória é a doçaria, onde imperam os ovos: as lérias, os papos d’anjo , os foguetes, os São Gonçalos e as brisas do Tâmega. 

Sempre se comeu bem em Amarante. Desde há uns anos que tenho vindo a acompanhar – e a confirmar – o esforço notável de melhoria, no serviço e na qualidade, que tem vindo a ser feito na Quinta do Outeiro, um restaurante numa moradia no lugar do mesmo nome, a que se acede, com grande facilidade, quando se circula pela A4, dela saindo, para quem vem do Porto, antes da grande ponte sobre o Tâmega.

A Quinta do Outeiro fica num alto, com vista sobre a cidade, com amplo espaço para estacionamento, o que, como é sabido, é uma preciosidade nos dias que correm. Por alguns anos, dispunha de uma única, embora ampla, sala. Agora, expandiu-se por um elegante espaço, amplamente envidraçado, sem, no entanto, ter visto a qualidade da oferta gastronómica minimamente afetada, como às vezes acontece. E também serviço teve um “upgrading”, sem, no entanto, perder o caráter genuíno e de simpatia. Como cliente habitual, desde os primeiros tempos, constato que nunca dali saí desiludido.

Passei por lá há dias, numa noite muito movimentada, próxima do Natal. E a refeição correu muito bem, sem uma falha nos pratos pedidos, com um atendimento rigoroso. 

Nas entradas propostas, fomos parcos: optámos por uma excelente alheira com grelos e um salpicão da Serra do Marão. Mas havia pataniscas, bolinhos ou salada de bacalhau, rojõezinhos, orelheira com molho verde e cogumelos salteados. Espargos ou melão com presunto também estavam disponíveis.

A casa opta, e bem, por uma lista curta nos pratos “de substância”, com meia dose ou dose completa para duas pessoas, a preço muito razoável, variando todos os dias. 

Nos peixes, além de salmão grelhado e pescada suada, havia um bacalhau com crosta de broa e batata a murro, com muito bom aspecto. Mas escolheu-se – e não ficámos arrependidos – um excelente bacalhau dourado, com demolho no ponto. 

Nas carnes, a casa excela. Há um javali estufado em verde tinto, um espeto de novilho com presunto, um medalhão de vitela com molho de mostarda, uns rojões com castanhas, um tornedó de vitela com queijo da serra e maçã assada. Mas decidiu-se fazer o teste supremo: pedir uma posta de vitela com batata a murro. E a Quinta do Outeiro passou amplamente, com a carne maronesa, muito bem temperada, como expectável menos suave que a barrosã, mas muito saborosa. Atenção! Recordo-me que, em certos dias, há por ali um excelente cabrito e, dizem-me, um cozido à portuguesa “de se lhe tirar o chapéu”.

Nas sobremesas, optou-se pelas sazonais rabanadas, mas destaco da lista os amarantinos, os pudins de ovos ou de ananás, os bolos de cenoura e nozes ou de bolacha, o quindim, etc.

A lista de vinhos é agradável, sem ser esplendorosa. Se pedir o vinho da casa, atenção!, ser-lhe-á servido verde, mas há vários maduros excelentes. 

A Quinta do Outeiro que, repito, tem vindo a melhorar, é hoje um valor seguro, a que sempre recorro com gosto, na bela terra de Amadeo e de Pascoaes.



Quinta do Outeiro
Rua do Outeiro de Baixo, 15
Tlf. 255 010 092
Amarante
Wifi
Estacionamento próprio
Preço médio: 25 euros
Não fecha

24.1.18

Trattoria (Lisboa)


Ontem à noite, ao entrar para jantar na Trattoria, o restaurante que fica quase na esquina da rua Artilharia 1 com a avenida Joaquim António de Aguiar, hesitei: estaria fechado? Mas eu tinha reservado! A porta estava escura, era difícil a um passante pensar que o restaurante estivesse aberto. Um casal brasileiro que nos acompanhava, frequentadores regulares de Lisboa e daquela zona, disse-me ter tido frequentemente a mesma sensação. A Trattoria não é, mas às vezes pode parecer, um restaurante “clandestino”. Porquê?

E, contudo, a Trattoria é um excelente lugar para se ter uma boa refeição, com pratos italianos (e não só) de muito boa qualidade e apresentação, a um preço agradável. O serviço é cuidado, o espaço é diversificado. À hora de almoço é um restaurante muito movimentado, mas é decididamente um lugar para “connoisseurs”, que não investe muito na hora de jantar. Dá ideia que a Trattoria tem mesmo a “snobeira” de querer passar despercebido! 

Visitem a Trattoria e verão que não se arrependem.

14.1.18

Quatro dias, cinco mesas


O Alentejo, em matéria de restaurantes, é uma “nação” (como se diz no Porto)! Não conheço zona do país (excetuando o Algarve, que é uma espécie de “offshore” em termos gastronómicos) onde haja uma concentração tão forte de boas mesas, onde a probabilidade de se não ter uma desilusão quando se entra numa casa desconhecida seja tão baixa. Confirmei isso agora, nuns dias que passei em Arraiolos.

Deixo cinco notas.

A primeira, e com destaque, gostei imenso da experiência do restaurante Gadanha (com a sua Mercearia), no centro de Estremoz. Uma lista criativa, bela apresentação, um serviço muito profissional, um local a revisitar com grande prazer. Preço a condizer.

Em Arraiolos, três notas. 

Na Pousada Convento de Arraiolos, num espaço hoteleiro hoje um pouco descuidado, tive, contudo, uma boa refeição, com um serviço atento e simpático. O preço foi o das pousadas, que não é baixo

No centro da vila, duas experiências. 

A primeira no restaurante Alpendre, um clássico, com decoração rústica bem alentejana, ficámos com “mixed feelings”. Tem uma carta ambiciosa que, no entanto, necessita de dar mais garantias na qualidade do que é servido. Serviço agradável. Preço razoável. Há que voltar.

A segunda foi na Moagem. Uma casa mais modesta, mas em que fomos bastante bem servidos, com o dono da casa a atender uma sala cheia. Preço bastante razoável.

Finalmente, já de saída, em Lavre, entre Montemor e Coruche, no Maçã, num almoço de domingo, com casa a abarrotar, tivémos um ótimo almoço. A sala é banal, as mesas um pouco encavalitadas, mas o serviço, apesar de lento, foi capaz e atento. O preço foi muito agradável.

10.1.18

O conceito


“Conhece o nosso conceito?” Foi já há alguns anos. Não percebi o que é que a jovem que me recebia no restaurante queria dizer com aquela pergunta. Devo ter feito uma cara de espanto, o que a levou, generosamente, a elucidar-me: “Gostava de lhe explicar o conceito do nosso restaurante”. 

O ”conceito”, na novilíngua restaurantista, é o modelo que marca a forma, necessariamente atípica, como se vai passar a refeição: ou há uma compra do vinho numa loja à parte, ou somos conduzidos através de espaços geográficos diferenciados da casa onde se passam “tempos” restaurativos ou beberricais diferentes, ou a ordem dos pratos segue um ”percurso” que o “chef” desenhou para diferenciar a sua “assinatura” na obra-de-arte que vamos ser convidados a “experienciar” (um vocábulo que abomino) - e a pagar com língua de palmo, claro.

O mundo dos restaurantes com “conceito” anda aí com força. Deve haver quem goste, imagino.

27.10.17

Restaurante Laranjeira (Viana do Castelo)



Uma Viana com tradição

A casa de que hoje vou falar é o exemplo acabado da evolução, que aconteceu em muitas vilas e cidades de província, daquilo que era a zona de refeições de uma antiga pensão para o que se tornou num cómodo e moderno restaurante. Num país em que, durante muito tempo, a rede hoteleira foi escassa e pouco acessível à bolsa da maioria dos viajantes, as pensões ofereciam alternativas de alojamento “mais em conta”. Eram sempre apoiadas numa sala de refeições, num registo quase familiar, que passou a abrir-se ao público exterior. Sem grandes pretensões ou arrebiques, nem falhas muito notórias - dependendo da qualidade dos produtos, do pundonor dos proprietários e da “mão” de quem os confecionava - a “comida de pensão” era, em geral, simples e escorreita, recorrendo à culinária portuguesa essencial. 

Nas memórias (algumas mais nostálgicas do que saudosas, confesso) que guardo desse país do passado, tenho registadas algumas pensões que criaram nome e firmaram justos créditos, muitas vezes ligados à arte de umas senhoras (nessa altura, a cozinha era reino exclusivo das mulheres) que ficaram conhecidas pelo seu nome próprio, a que algumas vezes ligávamos um determinado prato em que se distinguiam. Ia-se a “tal sítio” pelo bacalhau ou os pastéis de massa tenra ou o cabrito da Dona Adozinda, da Dona Felismina ou da Dona Gertrudes – para usar os nomes que o meu amigo Rui Vieira Nery lembrou, num texto saboroso, para designar as cozinheiras desses tempos.

O Laranjeira, bem no centro de Viana do Castelo, com os seus 75 anos de existência, é bem desse tempo. Era a Dona Maria, proprietária com o marido Francisco, quem oficiava na cozinha e que, ainda hoje, aos 95 anos, por ali é vista com gosto. Os aparadores escuros e o soalho que rangia, da minha memória muito antiga, foram substituídos por uma decoração funcional, que dá leveza ao espaço. Ao fundo, sem um cheiro a transbordar, fica a cozinha. Na sala, o proprietário, José Laranjeira, de sorriso aberto, e a Maria Eugénia, colaboradora que faz parte da mobília, desdobram-se numa atenção delicada aos clientes.

Passando à razão da visita. A lista, que é muito cuidada, apresenta, para além dois pratos de carne e dois de peixe do dia (não excedendo € 10 euros), uma lista razoável de entradas, encimada por uma degustação de sabores tradicionais, algumas saladas e gambas ou mexilhão salteados em azeite. Nas sopas, salienta-se, há muito, a de peixe. Nestes últimos, o bacalhau à Laranjeira tem justo nome, os filetes de pescada são um ex-libris, o peixe grelhado é o da lota, havendo um arroz caldoso de tamboril e um excelente (tenro, provei) polvo na caçarola. Nas carnes, o cabritinho no forno estava muito bom, tal como as costeletinhas de borrego. Havia ainda a vitelinha estufada (notem-se todos estes “inhos”, muito nortenhos) e o assado de porco com castanhas. As sobremesas vêm num carro, numa moda que eu gosto e me provoca recorrentes hesitações. Por lá estavam coisas como o pudim de ovos, o leite creme, coisas boas de chocolate e fruta para os que não queiram pecar. Ah! Um belo queijo da serra com marmelada caseira fechou a função. Boa variedade de tintos e, em especial, verdes brancos, a preços razoáveis, ajudam à função

Viana tem vindo a melhorar a sua oferta de restaurantes. Posso estar enganado, mas o Laranjeira é, seguramente, dos mais antigos e, com toda a certeza, aquele que, dentre estes, melhor evoluiu.

30.9.17

Marisqueira José João (Graciosa, Açores)



Uma Graciosa surpresa

Os Açores estão na moda. De há uns tempos para cá, o turismo que tem Portugal como destino, cansado do óbvio, do sol-e-praia e das igrejas que a História nos deixou, passou a olhar a nossa natureza com outros olhos. De início, eram uns britânicos e nórdicos deslumbrados com os caminhos montanhosos da Madeira e, por vezes, do Gerês. Depois, foi a descoberta do caminho fluvial para o Douro, com amenidades etílicas a ajudar à festa. Agora, com as "low-cost" a ajudar, os Açores emergiram no meio do Atlântico. O Portugal verde está cada vez mais recomendável.

Sou do tempo em que comer nos Açores - desculpem-me os açoreanos! - era uma aventura sem um fim muito gratificante à vista. Das diversas vezes que por lá andei nas últimas quatro décadas, recordo-me de escassas mesas decentes em Ponta Delgada e em Angra do Heroísmo, quase nada no Faial e alguns outros poucos locais a "armar ao típico", com a inevitável alcatra e um sofrível vinho do Pico. Valia-nos o queijo! Mas ninguém ia aos Açores para comer bem. Ponto.

Tudo mudou? Muita coisa mudou, para melhor. É claro que a oferta gastronómica ainda está a milhas de justificar uma deslocação ao arquipélago, mas começa a acompanhar o surto de turismo que, nos últimos anos, inundou as principais ilhas. Nem sempre isso sucede de uma forma qualitativamente acertada. Há alguma massificação a gerir melhor, parece haver um défice na qualidade média do serviço nos restaurantes a que há que estar atento. Mas as coisas vão no bom caminho.

Há semanas, fui à ilha da Graciosa. Apeteceu-me escapar ao hotel, pelo que perguntei onde se podia ter uma boa refeição por ali. As opções eram muito escassas, menos do que os dedos de uma mão. Somei as referências vindas de todas as fontes e todas coincidiram em que “no José João é que se come bem”. Nem sequer foi necessário seguir o método infalível que costumo usar numa terra onde nada conheço, e que deixo como segredo aos leitores: perguntar qual é o melhor restaurante da localidade a uma pessoa, simultaneamente, com ar abastado nas posses e bem anafado no corpo. Nunca falha! Ensinaram-me também, há tempos, um método cumulativo: inquirir qual é a mesa local preferida do presidente da Câmara. Se as duas referências coincidirem, melhor é, seguramente, impossível.

Com um conversador taxista a ajudar, lá fomos à Marisqueira José João. O rústico da casa não augurava nada de especial. A Débora, simpática e bonita filha do dono da casa, terapeuta de profissão a ajudar a família, em crise de mão-de-obra, guiou-nos por uma lista à partida pouco apelativa, um tanto “cansada” na apresentação, com alguma escassez na variedade dos vinhos. Mas a linguiça da Graciosa logo nos conquistou, com um excelente queijo temperado a ajudar. As opções de carne eram apreciáveis, dos diversos bifes à clássica posta. E por aí fomos, porque a carne açoreana é magnífica. Estávamos, contudo, numa marisqueira e o marisco disponível era escasso. Teria sido prudente ter encomendado cracas, cavaco e lapas. Que fazer? Voltar, claro! Assim fizemos no dia seguinte, para uma refeição soberba de marisco. Quem haveria de dizer que numa remota e pequena ilha atlântica iríamos comer de uma forma que nos ficará na mais positiva memória de uma visita aos Açores?

Marisqueira José João
Rua Fontes Pereira de Mello, 148
Santa Cruz da Graciosa
Tel. 295 732 855

30.6.17

Bodegão (Póvoa de Varzim)


Aquele casario baixinho, feito de casas de pescadores, foi mudando muito com os anos. A Póvoa de Varzim cresceu imenso, de A-Ver-o-Mar a Vila do Conde, mas não perdeu por completo a imagem de praia burguesa, onde, no passado, antes dos Algarves, algum Norte vinha passar os agostos, passeando na marginal da Avenida dos Banhos, com uma saltada ao Diana Bar (hoje biblioteca) e ao Casino.

Na Póvoa, pela minha memória, sempre houve locais onde se comeu bem. Daí a minha curiosidade em experimentar o Bodegão, restaurante e cervejaria, de que há muito me haviam falado, com nota positiva, num género descontraído.

Trata-se um espaço com dois níveis, com uma decoração de tralhas de velharias, com alguma graça, assegurando um ar acolhedor. Quase lembra o velho Café Chinês! Verdade seja que tudo é muito ajudado pela grande simpatia do pessoal, cujo profissionalismo e eficácia pude testar, num dia de grande movimento.

Gostei do pormenor, correto, de nos proporem entradas, sem no-las imporem. Coisas do mar (ameijoas, gambas, camarão, sapateira, polvo, mexilhão, atum, bacalhau) a preços razoáveis, com muito boa qualidade e confecção, naquilo que se provou. A lista era grande, tradicional, muito portuguesa.

Começámos com uma sopa de marisco, que demorou o tempo necessário a provar que tinha sido feita na hora, muito “rica” nos seus variados componentes. Nas propostas do dia havia coisas como um “arroz de robalo como o pescador poveiro faz”, um cabrito assado à padeiro (muito bom!), além dos clássicos bacalhau, arroz de pato e costeletão. A curiosidade levou a optar por uma “especialidade” da casa, a “posta à Bodegão com crosta de alheira”. Não me arrependi: carne era boa, saborosa, mas (desculpem lá!) não era posta. (A regra é “simples”: uma verdadeira posta deve ser passível de ser cortada com o outro lado da faca). Nos peixes, havia uma larga escolha “da canastra”, além de vários bacalhaus, fazendo honra à proximidade do mar. Várias outras carnes, com a vitela em destaque, em diversos tratamentos culinários, eram propostas. De novo, a posta dita “à Mirandela” (em Mirandela não há tradição de posta, a posta é “mirandesa”, de Miranda do Douro…). Permito-me também recomendar um maior atenção ao escrever al ajillo” e “champignons”, porque o rigor na apresentação de uma oferta gastronómica é o cartão de visita de uma cozinha. Depois, havia diversas propostas de marisco, risottos, pastas, saladas, alheiras e até francesinhas! A lista não era pequena!

Uma boa escolha de frutas e (muitos) doces clássicos compunham o menu das sobremesas, onde se optou simplesmente por uma rabanada poveira, que nunca tínhamos experimentado e que foi uma bela “première”.

Na terra de Eça de Queiroz, nesta Póvoa de Varzim ensoleirada no Verão e batida pela nortada nos meses de intempérie, continua a valer a pena parar para uma refeição. Este Bodegão da Póvoa – que raio de nome para um grupo de restaurantes!, tradução portuguesa de “bodegón” que seguramente não teve em atenção o significado que o dicionário luso dá à palavra – é um local simpático, descontraído e que não deslustra a cidade. Ah! E com preços muito convidativos.

O Bodegão
Rua Paulo Barreto, 2
Póvoa de Varzim
Tel. 252 624 716
Fecha:
Preço médio: €25
Estacionamento difícil


26.5.17

Solar dos Duques (Lisboa)

A solidez de uma cozinha tradicional

A Lisboa dos bairros já teve melhores dias, mas Campo de Ourique ainda é um bairro “a sério”. A cultura de vizinhança, a pequena loja, a certeza de poder encontrar por ali o essencial para a vida, tudo isso lhe confere uma unidade que outros bairros estão cada vez mais a perder. Na restauração, Campo de Ourique é hoje um marco lisboeta, com uma bela e diversificada oferta - das tascas a restaurantes com maior sofisticação.

O “Solar dos Duques” é por ali, desde há bastante tempo, um valor que tenho sempre por seguro. Passo por lá muito, nunca saí de lá insatisfeito. Cultiva uma cozinha tradicional com toque marcadamente alentejano, com alguma ambição na diversidade, a preços que são razoáveis para a qualidade oferecida. Tem um serviço profissional, num espaço modernizado, agradável. Para muitos, tem ainda uma virtualidade única: pode-se fumar em todo o restaurante, graças a uma ventilação muito eficaz. À hora de almoço, o “Solar”, que tem 50 lugares, está quase sempre cheio, com uma clientela fiel, mas aconselharia uma prévia reserva telefónica, em qualquer circunstância.

Olhando a lista, anotam-se, nas entradas, queijos alentejanos, ovos mexidos com farinheira, cogumelos recheados, empadinhas e chamuças, para além do paínho de porco preto e um presunto ibérico. Optámos, desta vez, pelo bom queijo fresco de Serpa e pelos peixinhos da horta, que sempre agradam por ali. Havia também ameijoas à Bulhão Pato e gambas “al ajillo” (quando aprenderão os nossos restaurantes, de uma vez por todas, a escrever isto de forma correta?) e uma oferta de marisco.

Nos pratos principais seguimos os “do dia”, e não nos arrependemos. Os pilins com salada russa, o borreguinho no churrasco com batatinha e grelos, as puntilhitas fritas à algavia, os rins de vitela no churrasco com ovos mexidos e os pastéis de massa tenra com arroz malandrinho foram as nossas opções. E, posso assegurar, nenhuma delas deixou “ficar mal” o Solar. Boa qualidade dos produtos, uma adequada confeção, uma apresentação sóbria, sem pretensões, tempo de serviço muito razoável, para uma casa muito cheia. Nos peixes, havia por ali robalo, garoupa, pescada, pregado, bife de atum, além de ovas e choquinhos. Nas carnes, para além dos bifes e do pica-pau, cuja carne costuma ser de muito boa qualidade, tinham opções de porco (lombinhos, secretos) e de borrego, bem como a alheira transmontana.

Atento o “peso” da experimentação anterior, nas sobremesas só se provou um “crumble” com gelado. Mas, de prévias visitas, guardo boas recordações do fidalgo, das ameixas de Elvas, com ou sem sericaia, e de um pudim Abade de Priscos que não deslustra o nome. No restante, havia o habitual: leite crème, arroz doce, tarte de amêndoa, etc.

O “Solar dos Duques” tem uma boa carta de vinhos, a preços comuns nos restaurantes de Lisboa. Experimentámos, desta vez, o tinto a jarro da casa, da zona de Portalegre, aceitável para o preço moderado a que é vendido.

O “Solar dos Duques” faz parte dos nossos poisos habituais, em especial ao almoço. Por isso, o leitor que seguir esta nossa recomendação arrisca-se a que nos cruzemos por lá…

Solar dos Duques
Rua Almeida e Sousa, 58 B
Campo de Ourique
Lisboa
Tlf 213 872 674
Fumadores
Encerra: Domingo
Preço médio 25 euros