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27.9.15

Tomba Lobos (Portalegre)


Como transmontano, confesso que nunca me reconciliei com a leitura de “campo” de muitos dos meus amigos lisboetas, frequentemente reduzida às longas planuras do Alentejo. Para quem nasceu “para além do Marão”, campo é outra coisa: são as serras, as montanhas, as pedras escalavradas e as urzes bravas. Por tudo isso, como cenário possível de compromisso a Sul, o Alto Alentejo é a zona onde me sinto bem. Tem, da região alentejana, todos os paladares e maneira de estar, conserva os seus inigualáveis ritmos do tempo, mas surge já cruzado com a dureza do terreno que se abre às Beiras, terras que me são mais próximas.

Fui há dias ao Alto Alentejo à procura de um cultor sereno dos sabores da região, o José Júlio Vintém. Conheci-o há um bom par de anos, quando agarrou, com maestria, um espaço simpático no centro da cidade de Portalegre. Segui-o depois, ao longo do tempo: vi-o já ali, numa moradia de periferia da cidade, em cenário rural, onde combina uma sala mais tradicional com um local adequado ao freguês do petisco, que, o tempo ajudando, pode acabar a acomodar-se na tertúlia galhofeira numa esplanada dianteira. Soube da aventura no Brasil e, agora, deste saudável regresso às origens. Que se saúda!

Com o José Júlio, a minha regra é irrevogável: deixo-o ir trazendo da cozinha o que o estiver para sair. Vieram assim, para além do excelente pão local, uma salada de beldroegas, um queijo de cabra assado no forno com orégãos, tibornas de tomates com azeite e uns peixinhos da horta - uma entrada simples por cuja textura “al dente” eu costumo testar o dedo dos cozinheiros. Por ali, nunca se enganam. Ah! E umas bolas panadas de rabo de porco, que, à vista, até presumi de alheira. Fechei as entradas com uma saborosa perdiz de escabeche, em cama de espinafres.

Que teria eu perdido, entretanto? Olhei a lista e lá estavam “paletes” de petiscos, que ficam para uma próxima vista, de que lhes deixo uma pequena amostra: pétalas de toucinho de porco alentejano no forno, rabinhos de tomatada panados, coelho em molho de vilão, molejas de borrego salteadas e umas inusitadas favas com morangos e enchidos do norte alentejano. E muito mais.

Nesse cardápio, surgiam umas iniciais misteriosas: PA, CA, TA. Lá me esclareceram: “produto alentejano”, “confeção alentejana”, “tipicamente alentejana”. Ali não se brinca em serviço!

Deixei os petiscos de entrada, terreno onde, como se sabe, no Alentejo se pode fazer uma refeição completa. Segui depois por uma açorda gratinada de fraca, com poejo, quiçá avinagrada um pouco demais para o meu gosto. Fechei este capítulo com um excelente rabo de boi guisado, de carne certificada.

Regressei à consulta da carta, para mais uma dose de angústia sobre o que entretanto perdera. Ali estavam, por exemplo, as sardinhas albardadas com açorda de coentros, o peito de galo recheado com farinheira, os nacos de vitela ao alhinho, com azeite virgem. E, claro, as sopas, açordas e migas, mas também diversos pratos com viandas de porco, touro, pato ou javali, além de vários usos criativos de bacalhau.

A lista de sobremesas é curta, mas cuida em separar os doces conventuais (o torrão real, os fartes, o queijinho de ovo) das receitas regionais, onde estão a boleima de maçã e um pudim de queijo com pétalas de rosa, além de outros bolos e tartes com marca local.

A carta de vinhos também não é muito longa e, naturalmente, privilegia os alentejanos. Por recomendação da casa, fui para um “Terrenus”, tinto de 2011, ali mesmo da Serra de S. Mamede, não muito denso, com um final prolongado agradável na boca. E preço módico que ajudou a uma conta que foi “em conta”, mas que sempre variará com o apetite do cliente.

Que recomendo ao visitante que vá de longe? Desde logo, que antes inquira o que de especial lhe pode ser preparado, se não quer perder alguns dos pratos que aqui leu. Ou que arrisque o que houver, porque o risco é sempre escasso.

O “Tomba Lobos” renasceu neste subúrbio de Portalegre. Que tenha longa vida! 



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* É o farfalhudo bigode do Apolino, o colaborador de sala que segue o José Júlio desde a casa original, que primeiro nos recebe com o seu sorriso franco. Cúmplice discreto dos usos da casa, o Apolino é hoje um cicerone atento.


* O Tomba Lobos existiria sem a Catarina? Duvido. Ela é a força motriz ao lado do José Júlio, dona de uma ironia sofisticada, companheira firme e serena de todas as horas.


* “Em Portalegre, cidade do Alto Alentejo, cercada de serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros, morei numa casa velha, velha grande tosca e bela, à qual quis como se fora feita para eu morar nela”, in Toada de Portalegre, de José Régio


* A serra é a vida do José Júlio. As hortas onde cultiva, os pequenos produtores que acarinha, a caça que traz para a cozinha, os amigos com quem faz tertúlia. Conheceu muito mundo mas é naquela serra que decanta anos de mesas e vivências, numa cozinha que só é pretensiosa na qualidade.

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Tomba Lobos
Bairro da Pedra Basta, 16
Sé,
7300-529 Portalegre

Tel: 245 906 111
Estacionamento fácil
Wifi
Não fumadores
Encerra: domingo ao jantar e 2ª feira


1 comentário:

  1. Tivesse vivido até aos dias de hoje José Régio, que tanto gostava de Portalegre, e poderia também saborear esses belos petiscos. Em face da ementa que anuncia no seu post, nem dá vontade de frequentar os restaurantes de Lisboa...

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