29.3.26

Sttau Monteiro


Há dias, fui com amigos almoçar a Alcabideche. A expedição tinha um propósito simples e sério: um cozido à portuguesa num restaurante que eles conheciam, o “Aires”. Valeu a pena.

Nesse dia, dei-me conta de algo que ignorava: aquela zona está densamente povoada de restaurantes.

E isso trouxe-me uma memória. A partir do final dos anos 60, Luís Sttau Monteiro escrevia, semanalmente, na “Mosca”, o suplemento de sábado do “Diário de Lisboa”, pequenas crónicas gastronómicas, sob pseudónimo. Falava de restaurantes de Lisboa, mas não só. (Quem tiver curiosidade sobre essa faceta do escritor pode ler "Luís de Sttau Monteiro – Gastrónomo", de Ana Marques Pereira.)

Alguns leitores passaram então a seguir-lhe o rasto. Ao sábado, iam jantar ao restaurante recomendado nessa semana. Com o tempo, sem se conhecerem, foram formando uma discreta comunidade. Pelas oito da noite, ao entrar na casa escolhida, encontravam-se as mesmas caras — um aceno leve, um sorriso cúmplice, como quem partilha um segredo sem o dizer.

Foi através dessas e de outras dicas do género que conheci, ou revisitei, várias casas que então surgiam ou estavam em voga. Eram mesas de cozinha portuguesa, num tempo quase sem “chefs” e longe das estrelas dos pneus, como ironizava José Quitério. A maioria desses restaurantes desapareceu; os poucos que restam mudaram de rosto, de donos e, muitas vezes, de qualidade. Ao contrário do que hoje se possa supor, Lisboa tinha então muito menos restaurantes. Sem grande exagero, atrevo-me a dizer que, fora algumas tascas de bairro, conheci praticamente todos.

Incluindo um, em Alcabideche, que agora me ocorre e que motivou este texto. Esqueci-lhe o nome — se alguém se lembrar, que se acuse — e nunca mais lá voltei. Era uma moradia isolada, alcançada por um descampado. A decoração seguia o rústico previsível da periferia de então. Não recordo se ali comi bem. Também não é essencial: os meus critérios eram outros. Eu próprio era outro.

Hoje, em Alcabideche, entre tantas mesas, há o “Aires”. Às quartas-feiras serve um bom cozido. Fica a nota.

24.2.26

Taberna Albricoque

 


Fica mesmo ao lado da entrada para a estação de Santa Apolónia (rua dos Caminhos de Ferro, 98). É uma bela taberna antiga, com uma sala ao fundo imperdível, tudo modernizado para servir de espaço a um restaurante muito criativo, sob a mão segura de Bertílio Gomes, um algarvio cuja cozinha sigo há anos. Iniciou a sua atividade profissional no Hotel da Lapa e encontrei-o em restaurantes como a Bica do Sapato, o Faz Figura, o VírGula (onde fui imensas vezes, chegando a fechar a casa para o grupo do Procópio) e o Chapitô à Mesa. Os preços da casa são bem simpáticos, atenta a qualidade oferecida. O ambiente é muito agradável, nada formal. Nunca de lá saí arrependido.

Para estacionar (quem for comodist tem uma praça de taxis em frente), siga pela avenida Infante Dom Henrique e procure um parque, do lado contrário à estação, na entrada em frente ao Lux. Ao fundo do parque, quase sempre há lugares. Reserve mesa. Eu faço-o pelo TheFork (usem esta app, é muito cómoda), mas podem telefonar (927 559 359 / 218 861 182). Fecha aos domingos e 2ªas.

18.2.26

À mesa no Alentejo

Começo por um "disclaimer": o que vão ler está longe de ser uma crónica gastronómica. Trata-se apenas de notas despretensiosas sobre algumas "escassas" refeições, em restaurantes, num fim de semana alargado no Alentejo, aproveitando o Carnaval e a "aberta" climática.


A jornada começou por aquela que se converteu numa das grandes mesas de Estremoz: a Mercearia do Gadanha. Prémio "Maria de Lurdes Modesto" 2024, de cozinha tradicional portuguesa, da Academia Portuguesa de Gastronomia, esta casa mantem, há vários anos, uma notável constância de qualidade. A sua lista é soberba. A relação satisfação/preço é excelente. Volto lá sempre que posso.


Um almoço menos exigente, com simpatia no atendimento e a oferta sempre muito honesta para o preço praticado, foi-nos proporcionada na Cadeia Quinhentista, ao lado da Pousada Rainha Santa Isabel.  Sejamos justos: o bacalhau dourado da Cadeia, que tem a tradição da Pousada de Elvas por detrás, estava muito bom. E do resto também nos não queixamos. À saída, foi com pena que olhei as portas e janelas fechadas do saudoso restaurante São Rosas


A marca Gadanha expandiu-se para outro espaço da cidade, a Casa Gadanha, num modelo diferente da casa mãe, mais "produzido", com opções de degustação na lógica da moda dos "momentos", com ou sem "harmonização" etílica. O serviço tem a "secura" tradicional do modelo escolhido, embora sem chegar ao "casual arrogant" de alguns espaços lisboetas (e não só) análogos. Comeu-se muito bem, com pratos excelentemente apresentados (deixo acima uma imagem). O ambiente é um pouco frio, "clean". O meu teste habitual é este: volto? Volto.

Para chegar ao Tintos e Petiscos, indo de Estremoz, são trinta e tal quilómetros até Vaiamonte. Comecei por conhecer a casa num outro espaço, já num outro tempo. A qualidade da oferta, numa lista 100% alentejana, foi sempre boa. Vale a pena ir à arrecadação para escolher os vinhos, embora em regra nada baratos. Fui por um Douro, ainda a preço razoável. Saímos satisfeitos, como sempre por ali tem acontecido.


De regresso a Estremoz, a noite estava animada no magnífico espaço do Howard's Folly, no sábado de Carnaval e "Valentine's day". Além de restaurante num espaço ao lado, é também um local para um copo, em ambiente simpático, com música ambiente. Casa conhecida por vinhos próprios muito bons, a decoração do seu espaço é muito interessante. A comida, sem ser um espanto, também o é.

Deixámos Estremoz sem rever o restaurante da Pousada (só dá jantares), bem como o surpreendente Larau e, uma vez mais, sem testar como se comporta a velha Adega do Isaías, desde há uns tempos com nova gerência. E sem repetir o Alecrim, uma aposta de difícil afirmação numa terra com tão boa oferta. As obras no Águias de Ouro continuam.


Vila Fernando não fica à mão de semear, mas raramente passo por aquela zona do Alentejo sem dar uma saltada à Taberna do Adro. As mesas são muito poucas no espaço da dona Maria José, mas a sua simpatia "vaut le détour", para utilizar o termo clássico do Michelin "vert". Os petiscos, anunciados na carta forrada a pano, fazem o resto, que é muito. Preço sempre em conta. Volto sempre.

Embora Estremoz seja, cada vez mais, "um caso sério" da gastronomia no Alentejo, Évora é a grande "Meca". 


Na imensidão da oferta eborense, andava há uns tempos com curiosidade de ir à Enoteca Cartuxa, junto ao Templo de Diana e à Pousada local. A experiência, sem ser esmagadora, foi bem simpática. Fez-se várias partilhas e estava tudo bastante bom. O serviço era muito agradável. É uma bela opção, quando se não pretende fazer uma refeição pesada.


Idêntica fórmula se seguiu, no almoço seguinte, no clássico Café Arcada, na Praça do Giraldo, agora renovado com uma estética quiçá discutível. As empadas estavam magníficas.


Fechou-se Évora com um sólido jantar no Luar de Janeiro: sempre muito bom, consistente, quase sem falhas. O serviço foi eficaz e bem divertido. Este espaço do Luar é bem melhor do que o que anteriormente ocupava, na mesma rua "larga".

Quando estou em Évora, arrependo-me sempre de não regressar à Tasquinha do Oliveira, ao Dom Joaquim, ao Moinho do Cu Torto, ao Origens, ao Tua Madre, ao Quarta-Feira - e sei lá a quantos outros excelentes lugares que por lá há, para além dos que se criaram fama e se deitaram na cama. 


Fechámos hoje a expedição carnavalesca com uma casa simples, já a caminho de Lisboa, em Santiago do Escoural. "Foste o Manuel Azinheirinha?", perguntará um expert das mesas alentejanas. Não. Foi uma alternativa mais singela, o Rabino's, onde a jornada terminou de forma simpática, com o dono da casa diligentemente a guiar-nos pela lista que mostro acima, num espaço que ganharia em ser um pouco "confortabilizado". Mas valeu a pena! 

De regresso a Lisboa, há agora que fazer uma semana mais espartana, para compensar os exageros de um belo tempo de Carnaval alentejano. E vou passar esta minha renovada lista de restaurantes ao meu médico de clínica geral, que tem gostos similares aos meus (se não fosse assim eu não o tinha escolhido).