18.2.26

À mesa no Alentejo

Começo por um "disclaimer": o que vão ler está longe de ser uma crónica gastronómica. Trata-se apenas de notas despretensiosas sobre algumas "escassas" refeições, em restaurantes, num fim de semana alargado no Alentejo, aproveitando o Carnaval e a "aberta" climática.


A jornada começou por aquela que se converteu numa das grandes mesas de Estremoz: a Mercearia do Gadanha. Prémio "Maria de Lurdes Modesto" 2024, de cozinha tradicional portuguesa, da Academia Portuguesa de Gastronomia, esta casa mantem, há vários anos, uma notável constância de qualidade. A sua lista é soberba. A relação satisfação/preço é excelente. Volto lá sempre que posso.


Um almoço menos exigente, com simpatia no atendimento e a oferta sempre muito honesta para o preço praticado, foi-nos proporcionada na Cadeia Quinhentista, ao lado da Pousada Rainha Santa Isabel.  Sejamos justos: o bacalhau dourado da Cadeia, que tem a tradição da Pousada de Elvas por detrás, estava muito bom. E do resto também nos não queixamos. À saída, foi com pena que olhei as portas e janelas fechadas do saudoso restaurante São Rosas


A marca Gadanha expandiu-se para outro espaço da cidade, a Casa Gadanha, num modelo diferente da casa mãe, mais "produzido", com opções de degustação na lógica da moda dos "momentos", com ou sem "harmonização" etílica. O serviço tem a "secura" tradicional do modelo escolhido, embora sem chegar ao "casual arrogant" de alguns espaços lisboetas (e não só) análogos. Comeu-se muito bem, com pratos excelentemente apresentados (deixo acima uma imagem). O ambiente é um pouco frio, "clean". O meu teste habitual é este: volto? Volto.

Para chegar ao Tintos e Petiscos, indo de Estremoz, são trinta e tal quilómetros até Vaiamonte. Comecei por conhecer a casa num outro espaço, já num outro tempo. A qualidade da oferta, numa lista 100% alentejana, foi sempre boa. Vale a pena ir à arrecadação para escolher os vinhos, embora em regra nada baratos. Fui por um Douro, ainda a preço razoável. Saímos satisfeitos, como sempre por ali tem acontecido.


De regresso a Estremoz, a noite estava animada no magnífico espaço do Howard's Folly, no sábado de Carnaval e "Valentine's day". Além de restaurante num espaço ao lado, é também um local para um copo, em ambiente simpático, com música ambiente. Casa conhecida por vinhos próprios muito bons, a decoração do seu espaço é muito interessante. A comida, sem ser um espanto, também o é.

Deixámos Estremoz sem rever o restaurante da Pousada (só dá jantares), bem como o surpreendente Larau e, uma vez mais, sem testar como se comporta a velha Adega do Isaías, desde há uns tempos com nova gerência. E sem repetir o Alecrim, uma aposta de difícil afirmação numa terra com tão boa oferta. As obras no Águias de Ouro continuam.


Vila Fernando não fica à mão de semear, mas raramente passo por aquela zona do Alentejo sem dar uma saltada à Taberna do Adro. As mesas são muito poucas no espaço da dona Maria José, mas a sua simpatia "vaut le détour", para utilizar o termo clássico do Michelin "vert". Os petiscos, anunciados na carta forrada a pano, fazem o resto, que é muito. Preço sempre em conta. Volto sempre.

Embora Estremoz seja, cada vez mais, "um caso sério" da gastronomia no Alentejo, Évora é a grande "Meca". 


Na imensidão da oferta eborense, andava há uns tempos com curiosidade de ir à Enoteca Cartuxa, junto ao Templo de Diana e à Pousada local. A experiência, sem ser esmagadora, foi bem simpática. Fez-se várias partilhas e estava tudo bastante bom. O serviço era muito agradável. É uma bela opção, quando se não pretende fazer uma refeição pesada.


Idêntica fórmula se seguiu, no almoço seguinte, no clássico Café Arcada, na Praça do Giraldo, agora renovado com uma estética quiçá discutível. As empadas estavam magníficas.


Fechou-se Évora com um sólido jantar no Luar de Janeiro: sempre muito bom, consistente, quase sem falhas. O serviço foi eficaz e bem divertido. Este espaço do Luar é bem melhor do que o que anteriormente ocupava, na mesma rua "larga".

Quando estou em Évora, arrependo-me sempre de não regressar à Tasquinha do Oliveira, ao Dom Joaquim, ao Moinho do Cu Torto, ao Origens, ao Tua Madre, ao Quarta-Feira - e sei lá a quantos outros excelentes lugares que por lá há, para além dos que se criaram fama e se deitaram na cama. 


Fechámos hoje a expedição carnavalesca com uma casa simples, já a caminho de Lisboa, em Santiago do Escoural. "Foste o Manuel Azinheirinha?", perguntará um expert das mesas alentejanas. Não. Foi uma alternativa mais singela, o Rabino's, onde a jornada terminou de forma simpática, com o dono da casa diligentemente a guiar-nos pela lista que mostro acima, num espaço que ganharia em ser um pouco "confortabilizado". Mas valeu a pena! 

De regresso a Lisboa, há agora que fazer uma semana mais espartana, para compensar os exageros de um belo tempo de Carnaval alentejano. E vou passar esta minha renovada lista de restaurantes ao meu médico de clínica geral, que tem gostos similares aos meus (se não fosse assim eu não o tinha escolhido).