3.3.13

O Lameirão

Desengane-se quem vá à espera de encontrar "haute cuisine" no "Lameirão". Trata-se de um espaço moderno, simples, que nasceu como uma casa de petiscos e que, nos últimos anos, evoluiu para um restaurante despretencioso, mas com uma qualidade que dele me leva a ser regular cliente.

Não há lista: pergunta-se o que há. E há, quase sempre, de dois a quatro pratos, que se repetem segundo os dias da semana. As escolhas fazem parte da cozinha transmontana clássica: vitela estufada (segunda) ou assada (sábado e domingo), feijoada (sábado, domingo e segunda), tripas à moda de Vila Real (terça, sexta, sábado e domingo), rancho (sexta), cabrito (ao domingo), bacalhau de cebolada (segunda), etc.. Ontem, sem estar na lista, comi uns excelentes filetes de polvo, com arroz do dito. Vale a pena reservar. Se se chegar tarde, alguns pratos já se foram.

Para meu gosto, a escolha vinícola é um pouco escassa, mas o Eleutério e a Alice, que há anos conduzem, de modo familiar, esta casa vilarealense, já devem ter percebido que esse espetro de oferta é adequado à sua clientela habitual. Nas entradas, há propostas diárias variadas: rissóis, pasteis de bacalhau, bola de carne, etc. As sobremesas são escassas mas simpáticas. A relação qualidade-preço é excelente.

"O Lameirão" é o restaurante de Vila Real mais próximo da IP4. Saindo desta via na direção da estrada antiga para Chaves, fica logo em seguida, imediatamente após uma rotunda. Com alguma arte e engenho, consegue-se sempre lugar para estacionamento. Aconselho vivamente uma visita.   

"O Lameirão"
Timpeira - Borralha
Vila Real
Tlf. 259 346 881

2.3.13

Sabores de Itália

Há dias felizes. Ontem, numa saída tardia de Lisboa, em direção ao Norte, deu-me para abandonar da serenidade saariana da A8 e sair em direção às Caldas da Raínha. Tinham-me falado que o "Sabores de Itália" tinha mudado de instalações, mas que mantinha a sua tradicional qualidade. 

É uma casa já com história, criada em 1995. Havia lá ido uma primeira ver com o meu amigo Jorge Galamba, já há muito tempo, tendo-me ficado uma boa impressão. Regressei três vezes, mas, da última, bati com o nariz na porta. A casa estava fechada. Pensei que era a crise. Afinal, o restaurante apenas mudara de endereço, a partir de 2010.

Não foi fácil lá chegar, porque as obras na cidade são mais do que muitas - não fosse este um ano de eleições autárquicas. O novo "Sabores de Itália" fica situado numa praça na zona antiga da cidade (pergunte pela "praça do peixe"), que apresenta a virtualidade de ter um excelente parque subterrâneo de estacionamento, cujo elevador dá acesso quase direto ao restaurante.

Contrastando com o tom clássico do passado, a atual casa tem uma decoração de estilo contemporâneo, com zona isolada para fumadores. O serviço é muito atento e com um sentido profissional extremamente apurado, como se constatou em certos pormenores. Talvez porque era noite de 6ª feira e havia uma muito razoável ocupação, o ritmo de atendimento foi lento.

Mas valeu, francamente, a pena. Tudo o que se experimentou estava perfeito. Na tradição da anterior casa, a lista é muito cuidada, com bastantes ofertas de inspiração italiana, somadas a pratos bem portugueses. A carta de vinhos é equilibrada. 

Não costumo aqui falar de pratos específicos, mas um carpaccio de salmão com trufas, a abrir, ficou-me na memória gustativa. Foi uma refeição soberba, a um preço muito aceitável, o que naturalmente foi ajudado pelo facto de apenas se ter bebido meia-garrafa (condução oblige) de um magnífico "Vallado" tinto.

Conclusão simples: vale bem a pena ir às Caldas da Raínha, só para aproveitar o renascimento do "Sabores de Itália", um "senhor" restaurante. Para mim, nos dias que correm, uma das melhores mesas portuguesas fora de Lisboa e Porto (e algum Algarve, como me dizem).

"Sabores de Itália"
Praça 5 de outubro (antiga "praça do peixe"), 40
Caldas da Raínha
Tlf. 262 845 600

27.2.13

De Castro Elias

Miguel Castro e Silva é, de há muito e sem favor, um dos melhores chefes portugueses. O seu antigo "Bull & Bear", na avenida da Boavista, no Porto, foi para mim, durante anos, o melhor restaurante português.

Há já uns tempos, Castro e Silva mudou-se para Lisboa. Responsável pela cozinha de "Largo", um agradável restaurante no Chiado, perto do teatro nacional de S. Carlos, passou também a dar a sua orientação ao "De Castro Elias", um pequeno espaço (40 lugares) perto da Gulbenkian, onde é apresentado um conceito um pouco menos ambicioso mas, nem por isso, com qualidade inferior.

Já por lá tinha ido algumas vezes ao almoço - altura em que é muito difícil arranjar lugar - e ontem fui lá jantar. Tudo o que se comeu no grupo em que estava incluído estava excelente, desde os petiscos às entradas, passando pelos pratos principais, escolhidos numa lista muito imaginativa, onde as referências alentejanas parecem predominar. A lista de vinhos, não sendo longa, é adequada e oferece um leque razoável, com cobertura de várias regiões vitivinícolas.

Desta vez, continuando sem ser especialmente notável, o serviço esteve à altura e teve um sentido profissional que, em visitas passadas, haviam fragilizado a minha opinião sobre a casa (como um dia referi pessoalmente a Miguel Castro e Silva). Fiquei com vontade de regressar*, em breve, ao "De Castro Elias".

"De Castro Elias"
Avenida Elias Garcia 180-B
Lisboa
Tel. 217 979 214

* Já lá voltei e comi ainda melhor que da vez anterior. E o serviço esteve impecável.

24.2.13

Memória - Tasquinha da Adelaide

Passei pela porta, há dias. As janelas estão cobertas, ninguém se lembrou sequer de recolher o toldo. Acabou a Tasquinha da Adelaide.

Era ali, naquela rua de Campo de Ourique, por detrás do Canas, frente ao pouco conhecido cemitério alemão de Lisboa. Se bem faço as contas, terá aberto em 1994. Fui lá uma primeira vez com o José Guilherme Stichini Vilela e o Hermano Reis - dois amigos que já se foram. Durante alguns anos, a Tasquinha foi um dos meus poisos regulares. 

A casa era dirigida pela Adelaide, uma simpática transmontana que havia viajado muito pelos States e Brasis e que, na segunda metade dos anos 90, soube trazer para Lisboa uma cozinha simples, assente em pratos tradicionais e alguns petiscos que, por algum tempo, se converteram em verdadeiras legendas na restauração lisboeta. Em 4 metros quadrados de cozinha a Adelaide fazia milagres. Eram os tempos em que por lá parava também o Pedro, namorado da Adelaide, um arquiteto que tinha graça e dava elegância ao serviço e que, mais tarde, se esfumou na vida da Adelaide. A Tasquinha estava então bem "trendy" e por lá passava obrigatoriamente meia Lisboa - política, artística ou outra.

A Tasquinha chegou mesmo a criar algum nome internacional. Vinha na maioria dos guias e recordo-me de ter enviado à Adelaide um recorte elogioso do "The New York Times". Fiz-lhe merecida propaganda pelo Brasil, onde o nome desta casa qie só disounha de 29 lugares sentados (testei os limites de espaço, numa noite em que "fechei" o restaurante numa despedida) já se tinha tornado popular e passara a fazer parte de roteiros de certos iniciados. Fernando Henrique Cardoso e vedetas das novelas eram "habitués" da Tasquinha, nas suas visitas a Portugal.

Com os anos, as minhas passagens pela Tasquinha da Adelaide começaram a ser mais esparsas. Outros restaurantes iam abrindo pela cidade e mobilizavam a minha atenção. Algumas notícias que recebia de visitantes mais atentos do restaurante não eram as melhores. A relação qualidade/preço fora-se degradando, com a rotação do pessoal a não ajudar muito o nível do serviço. Os vinhos subiram a preços astronómicos, sendo que aqueles que tinham um custo mais razoável eram de nível muito baixo. Algumas refeições revelaram uma quebra na qualidade dos produtos utilizados e um certo descuido na confeção e apresentação dos pratos. Em idas a Lisboa, chegámos a passar pela Tasquinha apenas para dar um abraço à Adelaide, sem por lá pararmos para comer. Bem mais recentemente, diziam-me que a Tasquinha perdera mesmo toda a sua graça.

Por onde andará a nossa amiga Adelaide? Seja onde estiver, envio-lhe um abraço de amizade e votos muito sinceros da maior sorte na vida.

19.2.13

Rota das Sedas

É um espaço inusitado, a que se acede por uma escada íngreme, numa zona recuada da rua da Escola Politécnica, muito próximo do largo do Rato, num edifício com uma história centenária. Nesse primeiro andar, as salas apresentam ambientes diferentes, sendo que a graça maior vai para o espaço posterior, com um terraço e um jardim que devem ser excelentes com sol na Primavera.

A lista é curiosa, bastante imaginativa e até surpreendente, não tendo encontrado, ao almoço, o consagrado "menu gasparito", de que me tinham falado e com um preço muito apelativo.

A experiência tida a um almoço, com um grupo de "habitués", foi francamente positiva. A oferta esteve à altura do que se esperava, bem como do preço pago. O serviço é agradável e solto. O ambiente global era agradável. Dizem-me que, ao jantar, se torna mais jovem e "lively".

Regressarei para verificar se esta primeira boa impressão se mantém.

Rota das Sedas
Rua da Escola Politécnica
Lisboa 1250-101
Tlf. 213874472

18.2.13

Faz Figura

Há restaurantes de que, muitas vezes, nos não lembramos automaticamente quando estamos à procura de um lugar para uma refeição, talvez porque fiquem fora dos roteiros centrais de Lisboa. Com culposa frequência, acontece-me isso com o "Faz Figura", local do qual , porém, sempre me lembro de ter saído satisfeito.

Ontem, com amigos estrangeiros e portugueses, fui jantar ao "Faz Figura", um local já com muitas décadas de existência (fui por lá a primeira vez nos anos 70) mas que, há algum tempo, foi muito bem renovado sob a batuta do meu amigo Jorge Dias, que tomou conta da casa.

O "Faz Figura" situa-se na colina por cima de Santa Apolónia, do "Lux" e da "Bica do Sapato". Dispõe de muito bons espaços, dos quais sempre preferi a magnífica varanda sobre o Tejo, que é deliciosa sob o sol na Primavera e nas noites de Verão. Porém, os seus espaços interiores são igualmente muito confortáveis.

Ainda não estou muito habituado a trocar as tradicionais listas escritas pelo uso de iPad's, para a seleção do prato, mas essaa sofisticação tecnológica (que tenho visto noutros restaurantes, às vezes para os vinhos) acaba por ter alguma graça.

No que verdadeiramente importa, registo que a oferta gastronómica era muito equilibrada e tudo o que se provou estava excelente, no quadro de uma culinária algo inventiva, mas que tem como eixo a cozinha tradicional portuguesa e os seus produtos. O serviço foi discreto e eficaz.

O "Faz Figura" é um excelente restaurante. Os seus preços são elevados, mas a relação qualidade/preço é pefeitamente aceitável.

Faz Figura
Rua do Paraíso, 15B, 1100-395 Lisboa
Tlf: 212 478 252

14.2.13

Stop do bairro

Ando há dias a pensar escrever aqui sobre o "Stop do bairro". Mas tenho hesitado. Porquê? Porque tendo eu decidido só dizer bem dos restaurantes de que aqui falo, tenho de me convencer que o saldo do restaurante é positivo. E é?

O meu amigo João Paulo Guerra continua a ser, de há muito, o grande "apaniguado" do "Stop do bairro", um restaurante em Campo de Ourique que visito, de tempos a tempos, em jantares informais. Mas de onde saio, quase sempre, com "mixed feelings". Porquê?

O "Stop" é um espaço pequeno, as mesas são encavalitadas umas nas outras, a privacidade só existe para mudos ou surdos. O serviço é errático, embora muito simpático. O dono, o sr. João, que tem a caraterística agradável de ser do Belenenses, na linha da visível mobilização futebolística da casa, encosta-se no balcão com cara patibular e escrutina a sala com olhar falsamente distante.

E a comida, estará o leitor a perguntar, cansado deste preâmbulo ambiental? Para quem goste de coisas simples, de apresentação comum, sem grandes sofisticações, o "Stop" é adequado. Há na lista os pratos tradicionais da cozinha portuguesa, com peixes e carnes em diversas apresentações e doces muito agradáveis. E bons vinhos, de escolha criteriosa. Mas, talvez por azar meu, a verdade é que nunca saí deslumbrado do "Stop", onde voltei na passada semana. O preço é perfeitamente adequado a uma casa do género.

Como sou teimoso, vou continuar, de vez em quando, a passar pelo "Stop", tentando um dia vir a confirmar que o João Paulo Guerra tem razão para o seu persistente fascínio pelo local.
 

Stop do Bairro
Rua Tenente Ferreira Durão, 55A
Telf: 213888856

Galito

Tenho, de há muito, o "Galito" como um dos melhores restaurantes alentejanos de Lisboa. No passado, a "Charcutaria" do Alecrim e o "Barrote Atiçado" da Pontinha eram, cada um ao seu estilo, casas muito interessantes dessa grande culinária regional portuguesa. Hoje em dia, o "Magano" ou o "Salsa e Coentros" dão-nos também uma bela mostra dessa cozinha. E não são os únicos. 

O "Galito" viveu durante muito tempo da genialidade da dona Gertrudes, acompanhada pelo filho Henrique. A senhora já por lá não anda mas o Henrique, agora já com um dos seus filhos na cozinha, continua a oferecer-nos, sem quebras de qualidade, um produto gastronómico excelente. Todos os clássicos alentejanos, das açordas e migas aos produtos à base da carne de porco, com petiscos como entrada que só o Alentejo pode apresentar, bem como as sobremesas tradicionais, estão presentes no agradável espaço do "Galito", ali perto do largo da Luz, na fronteira com Carnide.

O "Galito" não é um restaurante barato. Os bons vinhos alentejanos que por lá se servem (tem também uma boa escolha de Douros) não ajudam a baixar a fatura. Mas, tirando isso, é sempre uma ótima experiência. 

Galito
Rua da Fonte 18 - D, 1600-458 Lisboa



Tel: 217111088

13.2.13

Serra da Estrela

Devo dizer que, por uma questão de higiene visual e não só, apenas em desespero de causa acabo por comer nos centros comerciais. Mas, às vezes, por causa do desespero, isso ocorre. 

Hoje almocei, um tanto à pressa, nas Amoreiras (um "shopping", que sendo já vetusto, mantém uma imagem agradável e não decadente). Olhando para a díspare oferta, decidi-me por um local misteriosamente designado por "Serra da Estrela", subtitulado "cantinho regional", onde, há pouco mais de um mês, tinha caído, quase por acaso, pela primeira vez e fora bem servido. Hoje voltei a sê-lo.

A lista é agradável, com uma mão-cheia de pratos do dia, os quais, nas duas ocasiões, se mostraram à altura das expetativas, sob um preço razoável. O serviço é atento, profissional, há umas entradas simpáticas para quem quiser (mas que não são impingidas à força, como se vê muito por aí) e o ritmo da refeição processa-se com a necessária rapidez, própria de um local que manifestamente não é feito para se gozar como ambiente de amesendação.

Ao lado do "Serra da Estrela" há uma pequena loja com produtos da dita e não só, nomeadamente queijos que vou experimentar, que me disseram serem da Póvoa das Quartas (que falta me faz a Pousada de Santa Bárbara, que por lá existia!), e diversa charcutaria (até alheiras de Mirandela!) e doces. 

Repito: num local "sinistro" como é quase sempre o espaço de alimentação de um centro comercial, o "Serra da Estrela" é um oásis de qualidade. Onde, em futuro estado de necessidade consumista, irei voltar.

"Serra da Estrela"
Amoreiras Shopping
Tel: 213 831 631
 

10.2.13

Café de S. Bento


Agora já abre à hora de almoço, mas eu, tenho de confessar, associo o Café de S. Bento à noite, a um jantar para o tarde, a uma ceia, no máximo a uma conversa à volta de dois copos, ao fim do dia. Recordo-me de lá ir há imensos anos, de sempre ter podido contar com um serviço extremamente delicado e competente, com simpáticos profissionais vestidos a rigor, sem falhas.

Depois, claro, com os bifes magníficos e imbatíveis em Lisboa – “à portuguesa” ou “à Marrare”; como alguém disse: o "rolls-beef" português – servidos com uma batata frita deliciosa (em duas versões, à escolha), acompanhados de vinho (lista pequena, mas de qualidade, com boas meias garrafas, o que começa a ser raro) ou uma cerveja “bem tirada”. Cuidado com o pão torrado e a manteiga de entrada, que são uma tentação. E há empadas, atenção! E queijo da serra, de grande qualidade.

Os frequentadores são de variadas e múltiplas “raças”. Durante a semana, passam por lá, quase sempre, espécimens da nossa operosa deputação parlamentar, a prolongar a noitinha, quase sempre em registo de grave intriga, depois da exaustante tarefa diurna, exercida a bem da pátria e de todos nós. Aos domingos (porque está aberto aos domingos!) é a vez dos executivos/advogados da Lapa/Estrela assentarem nos sofás as bombazines e as Burberry’s, com madames esfomeadas à ilharga, a agitar os doirados cabelos, sempre de olho na entrada dos amigos “de toda a vida”, no tardio regresso do fim de semana nos montes alentejanos, às vezes com filharada adolescente já a aculturar-se ao espaço e aos bifes. E todos os outros, os namorados em busca das mesas de “tête-à-tête”, os solitários maduros que lêem o jornal disponível (com vareta, à antiga!) e cocam com displicente ansiedade a porta, em busca de companhia conhecida, para pôr termo à solidão frente ao copo, o pessoal da Fundação vizinha, os jornalistas já cansados dos colegas do Snob, etc. Tudo num ambiente sereno (salvo algumas “tias” e deputados mais histriónicos, a jogar para a plateia), muito agradável, de “boa onda”. E sem pressas, sem ninguém nos “enxotar” das mesas, mesmo que nos alimentemos por horas a cafés (desde sempre acompanhados de “After Eight”, como o horário recomendado recomenda).

Sujeito há tempos a uma profunda renovação que dele nos privou por alguns meses, o “Café de S. Bento” fez um “lifting”, ficando com uma decoração que lhe preservou o essencial da imagem, mas com mais bom gosto e modernidade, além de mais espaço. E continua a acolher fumadores (mas com excelente extração de fumos) e ganhou uma sala de jantar de grupos no andar superior, onde se não pode fumar. E agora até nos oferece parking, a 200 metros, coisa que, nos tempos que correm e na área onde se situa, não deixa de ser uma apreciável vantagem comparativa.

Restaurantes em Lisboa há muitos, alguns de grande qualidade e, quase todos, com uma lista muitíssimo mais variada. Mas a noite de Lisboa não seria o que é se deixasse um dia de contar com a excelente âncora de qualidade que é o “Café de S. Bento”. Um restaurante caro mas bom.

Café de S. Bento
Rua de S. Bento, 212
Lisboa
Tel. 213 952 011

9.2.13

Adega Coelho

Se chegar de carro, durante os fins de semana, prepare-se para não ter grande tolerância no estacionamento, por parte de uma vizinhança que, infelizmente, não parece sensível às qualidades gastronómicas da "Adega Coelho", em Almoçageme. Ou, então, faça como eu: vá de "Smart"...

Conheço a "Adega Coelho" há muitos anos, um lugar onde sempre fui com amigos, para almoçaradas descontraídas, por vezes em grandes grupos. A especialidade da casa sempre foram os grelhados, cozinhados num forno à vista das mesas num pátio exterior, onde, a partir da Primavera e em dias de sol, as pessoas se distribuem. 

A lista é relativamente curta, tendo variado muito pouco ao longo dos tempos. Hoje, refugiámo-nos, com sucesso, no bacalhau assado, regado a um bom tinto da casa, com um pão magnífico. A conta foi bastante razoável.

Um aviso: não chegue com pressa, quer para obter mesa, quer para ser servido, nos dias de grande enchente. E vale a pena telefonar antes.

Adega Coelho
Almoçageme, Colares
Tlf.  219 290 293

8.2.13

A Confraria - York House

"A Confraria", o restaurante da York House, nas Janelas Verdes, continua a ser um excelente local de amesendação, como hoje o confirmei. A lista é sobriamente curta, como eu gosto, com pratos bem portugueses - a alheira de caça de Boticas (!) era magnífica e a amiga que me acompanhava disse que o prato de carne de porco que  pediu estava excelente. A lista de vinhos é altamente criativa e muito bem apresentada. O serviço é sóbrio e de grande elegância profissional.

Quando o "sol de Inverno" mudar de estação, o delicioso pátio da York House será dificilmente batível nesta bela cidade de Lisboa. E por lá irei aligeirar a minha carteira com imenso gosto.


A Confraria - York House
Rua Janelas Verdes 32
Lisboa
Tlf. 213 962 435


7.2.13

Vela Latina

Já não ia ao "Vela Latina" há alguns anos. Almocei por lá hoje. Não é um local barato, mas continua a ser um restaurante muito sólido, com uma oferta gastronómica de qualidade e um serviço de grande profissionalismo. Foi uma boa experiência.

O "Vela Latina" é um restaurante agradável, pela sua proximidade com o rio, junto da Torre de Belém, com a fantástica qualidade de ter estacionamento relativamente fácil, coisa que começa a rarear em Lisboa. Sempre associei o "Vela Latina" a encontros profissionais. Por lá tive alguns, muitas vezes na sala mais reservada. Fiquei com a sensação de que essa caraterística continua a prevalecer no local.

Quem quiser fazer um almoço mais ligeiro, tem um snack-bar anexo, um lugar bem simpático em dias de sol.


"Vela Latina"
Doca do Bom Sucesso
Belém
1400-038 Lisboa

T: +351 213 017 118
M: +351 910 174 024
F: +351 213 019 311

GPS: N38º 41.6′ W9º 12.8
Para reservas ou informações: 213 017 118 | 910 174 024
Encerra aos Domingos e Feriados.
reservas@velalatina.pt

6.2.13

Solar dos Nunes

O ambiente mantém-ser inalterado desde há muitos anos. Tem aquele ar acolhedor e pouco formal dos restaurantes tradicionais lisboetas, um estilo solto e agradável de funcionamento que nos coloca imediatamente à vontade. Em matéria gastronómica, continua um "senhor" restaurante. A lista é soberba, com a caça em lugar de destaque, a carta de vinhos é equilibrada, tem uma boa relação qualidade/preço (o qual, contudo, não é baixo) e um serviço muito simpático.

O "Solar dos Nunes", um restaurante na área de Alcântara, fora das centralidades lisboetas tradicionais, continua a ser um porto sempre seguro nos dias que correm. Deixou-me vontade de lá regressar em breve.

"Solar dos Nunes"
Rua dos Lusíadas, 70
1300-372 Lisboa
Tel 213 647 359
Site: www.solardosnunes.com

31.1.13

O Comilão

Que ninguém quem pense que vai encontrar "estrelas" do Michelin no "Comilão". O restaurante é um pouso sereno, sem grande esmeros a nível de decoração, numa rua com imensas dificuldades de estacionamento, com uma gastronomia estável e - de há muito o percebi - sem grandes pretensões. É hoje um dos mais tradicionais restaurantes do bairro de Campo de Ourique, um local de famílias, onde muitos se conhecem de há muito e todos se sentem em casa.

Uma das curiosidades do restaurante é a presença constante, em especial ao almoço, de figuras de um determinado setor da classe política, que, pelo menos por agora, anda bastante ocupado. As paredes do restaurante espelham bem esse pendor maioritário, o que não obsta a que outros clientes, de outras orientações, continuem a ser fiéis do local. Sei do que falo...

Não sendo, decididamente, um "must" em matéria culinária, por que diabo recomendo "O Comilão"? Porque é um local amável, com o acolhimento inexcedível do sr. Cardoso (que é do Sporting) ou do sr. Nelson (que é do Benfica), que são meus amigos de há muito e que sempre me dizem o que hei-de comer. Sinto-me sempre bem no "Comilão", pronto! Veja onde é aqui. E experimente!

Restaurante O Comilão
Rua Tomás da Anunciação, 5A
Lisboa
Tel.  213 962 630

30.1.13

Painel de Alcântara (RESTAURANTE ENCERRADO)

Nos idos de 87/88, comecei a frequentar o "Painel". Estava aberto há pouco. Havia então por lá a Zezinha, sempre gentil, ao balcão, do lado esquerdo de quem entrava naquela casa pequena e esconsa, situada no dédalo operário de Alcântara, um pouco além do muito estimável "Alazão", perto do simpático, mas instável, "Cuidado com o degrau". Seco de carnes, agitado no gesto, educado na atitude, o Cardoso era (e é) um mouro de trabalho, que ia às 5 da matina ao mercado sacar, para nós, os melhores produtos. Tinha então o louro Zé na cozinha (onde ele próprio está hoje), que entretanto desapareceu da circulação, depois de termos conseguido, aí por 90, evitar-lhe por algum tempo a incorporação militar (numa conspiração de "bloco central" baseada em meras, mas consistentes, considerações egoístico-gastronómicas). O cardápio era simples: abriam o queijo e o presunto, com bom o vinho da casa, seguia-se uma lista farta, as pataniscas com o insuperável arroz de feijão a dominar (lembra-se, Alfredo ?), o excelente cabrito assado, o cozido das 4ªs e as favas guisadas com entrecosto, capazes de humilhar as primas de Tormes. Depois, o "Painel" alargou-se à casa ao lado, a Zezinha foi-se pela vida, o Cardoso casou, teve filhos, chamou os irmãos, houve noites com fados, a casa entrou (felizmente) na moda da noite lisboeta. Mas o nosso Cardoso não desistiu: ficou sempre pelo "Painel", não adormeceu à sobra do sucesso. Perdeu (contra o meu conselho) a aposta ousada de tentar recuperar a "Cesária", mas manteve incólume, com o seu trabalho, a grande qualidade da sua comida e o seu serviço ímpar. O meu amigo Cardoso é um grande Senhor da restauração lisboeta, um homem bom e um excelente profissional. Lisboa, por natureza, não reconhece méritos; se outra fosse a atitude da cidade, o Cardoso merecia uma medalha. Assim, tem apenas o nosso reconhecimento e a amizade sincera de quem o estima. Conhecendo-o, acho que lhe chega.
 
"O Painel de Alcântara", Rua do Arco, 7, 
Lisboa
Tel. 213 965 920

Estacione em casa...

29.1.13

Museu dos Presuntos (RESTAURANTE ENCERRADO)

Se não é um frequentador regular, como é o meu caso, mas apenas episódico, e está à espera de grandes novidades na ementa, desengane-se. Nesta casa pratica-se uma comida regional sólida, com pratos há muito testados e que são uma espécie de rosto da sua tradicional oferta gastronómica. Por isso, a lista chega a parecer algo monótona, mas, se bem lida, vê-se que tem um equilíbrio próprio, dá grande segurança e oferece opções muito diversas. As incursões regulares do meu amigo Silva pela zona do Barroso permitem-lhe assegurar um permanente abastecimento de óptimos produtos da região, ao mesmo tempo que o Douro é a zona forte da magnífica garrafeira, com preços bastante razoáveis, em especial para o que por aí se vê. O presunto é sempre de primeira qualidade, a vitela barrosã é a base da bela “posta”. Não se espraie muito pelas apetitosas entradas, porque tem de estar disponível para o que vai seguir-se. O serviço pode ser um pouco lento em dias de casa cheia, mas é sempre simpático e acolhedor. Um “senhor” restaurante, um dos melhores, senão o melhor de Vila Real – que me desculpem os outros, mas a culpa é exclusivamente deles! Uma alternativa: se as mesas dos "habitués", à esquerda de quem entra, não estiverem preenchidas, o que é raro, pode provar apenas uns petiscos com vinho da casa, em malga... 
Museu dos Presuntos

Avenida Cidade de Ourense, 43
Vila Real
Tel. 259 326 017


28.1.13

Chaxoila

Se há muito não vai ao Chaxoila, saiba que está diferente. Uma nova gerência tomou conta, desde há escassos anos, desta que é uma das casas mais tradicionais de Vila Real.

O espaço deste restaurante bem antigo, para além de se ter "confortabilizado" na zona interior, tem agora uma zona protegida por vidro que pode ser muito interessante no inverno. A área exterior, com a tradicional esplanada sob a ramada, é um sítio magnífico, especialmente em noites de verão. Pena foi que o piso não tivesse sofrido um arranjo que evitasse uma certa desarmonia com o mobiliário, com consequências incómodas. O serviço é "solto", simpático e quase jovial, o que nos faz esquecer algumas imprecisões. A cozinha começa a estar sólida, embora não deslumbrante, pelo que será de desejar algumas melhorias. A carta de vinhos é excelente, com os Douros naturalmente em evidência.

Nota ao visitante: saia da IP4 em Vila Real Norte, tome a direção da estrada antiga para Chaves. O Chaxoila está 200 metros à direita.

Restaurante Chaxoila
Estrada nacional Vila Real-Chaves
Tel 259 322 654

12.7.10

Regresso

Mudámos de estilo. Este blogue passará a fazer,  por regra, notas bastante sintéticas de experiências de restauração do (agora) seu (único) autor.
Eliminámos parte do passado de escrita, porque este é um terreno em que as coisas se desatualizam com facilidade. Ficou aquilo que, entretanto, confirmámos.

2.1.10

Memória - Imperial do Campo Pequeno

O cenário não era muito promissor, para quem entrava pela área da tasca, sempre apinhada de “classe operária” barulhenta, com o ambiente de lugares lisboetas do passado, tonéis ao fundo e cheiro a serrim. Com a cabeça quase a desaparecer, movimentavam-se atrás do balcão uma figura com óculos de fundo de garrafa e um outro empregado redondo e sempre sorridente, que aviavam das melhores “sandes” de presunto da cidade, A sala, separada por um tabique, tinha fileiras de mesas, lugares lado-a-lado e frente-a-frente, toalhas e guardanapos de papel, ambiente solto e galhofeiro ao almoço, mais familiar e “tête-à-tête” ao jantar. Na cozinha, cuja azáfama se seguia à distância, pontificava a simpática dona da casa, cara fresca arredondada, auxiliada, entre outras, por uma vetusta senhora que parecia saída dos tempo do Fernando Pessa – ele também um cliente habitual, tratado com grande carinho. O dono fazia a sua aparição junto dos “habitués”, que eram muitos, anotando falhas e lembrando o serviço em atraso. A lista era curta, verde por fora, num plástico sebento, com acrescentos à mão. A “Imperial” fazia jus ao nome com uma óptima cerveja, que acompanhava camarões, antecedendo os pratos “substanciais”, em travessas de alumínio, de que recordo uma recomendável vitela assada e o cozido do sábado. Por cansaço do dono a "Imperial" fechou já há alguns anos. É a vida!

3.9.08

Águas passadas no DOC


DOC
Folgosa do Douro
Estrada Nacional 222, entre a Régua e o Pinhão, na margem esquerda do Rio Douro.
Tel. 254 858 123

O entusiasmo com que partira a caminho do DOC foi de tal forma afectado pelo choque da informação recebida que abrandei a velocidade e quase parei o carro. Um jantar no DOC, sem vinho?!

Pois era essa a proposta, nem mais nem menos: uma refeição de degustação, só com águas e total ausência de alcoóis. Confesso que a hipótese de desistir chegou a passar-me pela cabeça e que só o facto de haver um compromisso fixado com antecedência, e não querendo ofender o autor do alvitre – um arquitecto de “primeira água” –, fez com que a minha relutância fosse atenuada.

A imagem que eu mantinha do DOC era muito positiva, pela boa memória de uma visita passada. Críticas lidas ao longo do ano haviam-me alimentado o desejo de regressar e rever a cozinha de Rui Paula, que me diziam estar cada vez mais imaginativa, com uma rara sustentação de qualidade. Mas, tenho de confessar, desse desejo também fazia parte integrante a possibilidade de acompanhar a comida com algum ou alguns dos excelentes Douros que integram a magnífica lista de vinhos que o restaurante sempre apresenta.

O DOC tem uma situação privilegiada, na margem esquerda do Rio Douro, a meio desse percurso mágico que é a sinuosa estrada entre a Régua e o Pinhão, bordejada de vinhas e nomes de quintas, algumas a fazerem-nos recordar rótulos de belas produções vinícolas. O local é magnífico, em dia ameno pode-se utilizar o deck exterior. Dentro, telas de plasma na sala permitem seguir os trabalhos na cozinha, um exercício de transparência que nos aumenta a confiança. Uma área para amenizar a espera foi entretanto criada, com um piano a sugerir interessantes potencialidades e a assegurar que nunca o espaço virá a ser perturbado por uma qualquer “musak” ambiental. E, sobre tudo isso, a certeza de podermos beneficiar de um cenário deslumbrante, no centro de uma paisagem de uma serenidade única.

Tudo bem, tudo isso era verdade, mas a minha perplexidade mantinha-se. A ideia continuava a ser verdadeiramente bizarra: um jantar degustação, sem vinhos, só com águas?! Não sou fundamentalista, não sou um ansioso de vinho, passo imensos dias sem provar uma gota de álcool. Mas no DOC, no coração do Douro, um jantar sem vinho soava-me como que ofensivo a esses “montes pintados” que Araújo Correia nos descreveu.

Foi num misto de perplexidade e curiosidade, com a primeira a superar em muito a segunda, que entrei no restaurante. Ainda lancei, sem sucesso, a ideia de, pelo menos, “abrir” com um gin tónico, como que a criar lastro etílico para sustentar o que aí viria. Fui logo desiludido por vozes suavemente reprovadoras, que me alertaram para os riscos de afectação da pureza gustativa, a qual deveria ser mantida numa espécie de virgindade profiláctica, indispensável ao acolhimento dos gozos que se seguiriam.

E, pronto, lá fomos para a mesa, uma dúzia de convivas, a maioria desconhecidos, uns aparentemente mais convictos das virtualidades do exercício que outros – comigo, francamente, bem ancorado no campo dos últimos.

Tudo começou por um período inicial de carência psicológica, em que um ou outro lá ia recordando a falta do vinho à mesa. A sólida constatação de que o único líquido permitido seria a água provocou então graçolas nervosas, com os mais imaginativos a aventarem o recurso limite a uma “aguardente” ou a uma “água-pé”.

É que, de facto, eram as águas as rainhas da noite. Águas diferentes, umas lisas outras gasosas, umas mais “planas” outras mais “profundas”, algumas algo “agressivas”. Tivemos até o privilégio de provar umas nórdicas de belo design, mais frescas umas que outras. Sempre águas, claro! Apenas uma água era portuguesa e, para mim, totalmente desconhecida.

Durante o repasto, as águas sucediam-se, em copos diferentes, cada uma a acompanhar as (creio!) oito propostas gastronómicas, que não estavam sequer listadas à partida. Um simpático “expert” – reputado conhecedor de vinhos, imaginem! – procurava ajudar-nos a identificar, não apenas a singularidade de cada uma das águas experimentadas (sobre cujas qualidades comparadas alguns dos convivas já ousavam, a medo, “mandar bitaites”), mas igualmente a razão pela qual essa mesma água fora seleccionada para acompanhar tal prato, em função do seu potencial para combinar, por contraste ou complemento, o produto cozinhado.

E foi então que se foi passando essa coisa extraordinária que foi o facto de, sem disso termos real consciência, a ausência do vinho ter deixado praticamente de constituir tema da conversa, muito menos de qualquer angústia. A refeição, regada a águas, ia-se impondo naturalmente, perante o deslumbre dos sentidos, a variedade das escolhas propostas, a riqueza das combinações que nos eram oferecidas.

Duas evidências ficaram claras, na minha perspectiva.

A primeira foi o facto da ausência do vinho nos ter tornado, a todos, muito mais atentos aos sabores do que nos ia sendo apresentado, não nos “distraindo” da essência dos paladares, obrigando a que nos concentrássemos, de forma mais profunda, em cada componente do que nos era sugerido. Por mim, pude constatar que o vinho, em toda a sua imorredoura glória de factor criativo e de qualificador global do gosto, pode ter o “defeito” colateral de nos afastar do esforço de procura de construção/desconstrução do que estamos a saborear, da especificidade de um molho, da ténue diferença gustativa de um vegetal, da “nuance”, quase imperceptível, de um produto sujeito a um tratamento muito sofisticado. Digo isto porque, talvez pela primeira vez desde há muito, consegui descortinar e isolar, combinando-os depois muito melhor, os componentes que o Chefe ia indicando como constituintes das propostas gastronómicas que surgiam.

Quererei dizer, com isto, bem no coração deste nosso Douro, que o vinho passou a ser algo dispensável? Longe disso: o vinho é, cada vez mais, o grande “sublinhador” criativo dos paladares, o provocador de efeitos que se acrescentam aos alimentos e deles consegue extrair novos e decisivos matizes. E tem, além disso, uma importante carga eufórica, que excita as almas e alegra os tempos, particularmente se for de qualidade e se tomado com conta, peso e medida – e, claro, se as garrafas forem abertas com antecedência adequada e se servido à temperatura requerida.

Mas esta interessante experiência teve a virtualidade de nos mostrar que, numa refeição, há mais vida para além do vinho, se bem que a vida e a refeição sejam sempre muito boas com ele à frente.

Uma segunda constatação também se impõe: a virtualidade desta prova, sem o recurso ao complemento do vinho, só teve o sucesso que teve pelo facto de ter sido apoiada na qualidade excepcional de todos os pratos apresentados, que a ausência do álcool permitiu que ganhassem autonomia própria, deixando-os “brilhar” por si mesmos. E foi a circunstância dessa qualidade nunca ter decaído ao longo do jantar, de prato para prato, que conseguiu garantir um apego contínuo e sustentado do nosso paladar àquilo que íamos degustando, sem fazer ressaltar a “saudade” do travo adjectivo do vinho. Com uma refeição banal, por melhores que fossem as águas, tudo não teria passado de uma grande “seca”… E eu, tenho de admitir, fui menos capaz do que outros companheiros desta agradável jornada de ser sensível a algumas características específicas que eram atribuídas e identificadas em cada uma das águas provadas.

Dito isto, vamos ao principal: Rui Paula provou-me definitivamente, nesta memorável noite, que é hoje um dos chefes portugueses com maior criatividade, que consegue aliar a sofisticação de uma cozinha contemporânea de grande nível e excelente apresentação com algumas notas de rodapé gustativo, em que faz orgulhosa questão de trazer-nos à lembrança sabores regionais, na maioria dos casos tipicamente nortenhos, umas vezes de forma subliminar, outras de modo plenamente assumido. Rui Paula consegue assim demonstrar-nos – e entendo que outros deveriam aprender com isso – que o cosmopolitismo sofisticado de uma cozinha não é incompatível com o recurso a citações sensoriais ligadas às raízes geográficas de onde se opera. Pelo contrário, a originalidade do que nos propõe no DOC só ganha com a chamada à mesa desses mesmos elementos.

Num circo, trabalhar sem rede é um risco que enobrece a arte. Num restaurante, ousar um menu sem o recurso ao complemento de vinhos será talvez a prova mais provada de que a grande gastronomia também se constrói na autoconfiança e na certeza de que a qualidade se imporá sempre por si própria. Quando exista no trabalho de um grande Chefe, como é o caso de Rui Paula.

A boa disposição com que saí deste exercício – que, a bem dizer, deveria ter o “mecenato” da Brigada de Trânsito da GNR – leva-me a ecoar a já célebre frase de um velho oficial de Marinha, pouco navegado nas especificidades da gramática, que a nossa História acolheu como uma patética anedota política, quando um dia quis qualificar uma sua qualquer alegria pública: “só tenho um ‘adjectivo’ para expressar o que hoje aqui senti: gostei!”.

A foto que ilustra esta nota foi amigavelmente sonegada ao Francisco.

29.7.08

Barca Velha 1983

Hoje, almoçando sozinho em casa, rodeado de jornais, na maravilha de silêncio que pode ser um jardim neste "Inverno" de Brasília, foi-me servido um vinho que, logo ao primeiro paladar, me pareceu estranhamente bom. Degustei segunda vez: era, de facto, excepcional. Suave logo ao primeiro gole, macio na "mastigação", mas forte no final, sem ser agressivo e sem acidez excessiva.

Como, na véspera, havia mandado abrir um simpático Quinta do Crasto, que me havia parecido banal, o que atribuí à abertura tardia, pensei que fosse a noite que o tivesse melhorado.

Como diria o Augusto Gil, na "Balada da Neve": "fui ver". E não é que tinha acabado de iniciar uma garrafa de Barca Velha 83, pequena safra comprada nos idos de Londres, nos anos 90 !

O que aconteceu ? Numa visita de rotina à minha adega, há dois dias, tinha apontado, para ilustração do excelente funcionário que me ajuda na respectiva gestão, uma garrafa isolada de um outro vinho, de que só restava uma garrafa, pedindo que o trouxesse para quando eu almoçasse a sós. Ou eu apontei mal ou ele percebeu mal.

E o escolhido acabou por ser o Barca Velha 83. E que têm os leitores a ver com tudo isso ? Nada. Apenas queria transmitir-lhes a certeza de que uma surpresa resultante de um engano (bem caro!) pode transformar uma refeição banal num almoço principesco.

Arrependido? Qual quê! Só se vive uma vez ! E, já agora, garanto, o Barca Velha 83 está magnífico !